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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Enunciar posições do topo de um pedestal

Há quem ache que enunciar a sua posição é suficiente. Principalmente se for feito num tom que não admite resposta, do estilo «isto é assim porque eu digo e eu sei que é assim e acabou a discussão». Quando alguém contra-argumenta ou levanta uma objecção, a resposta poderá ser a típica descaracterização da posição contrária ou um ataque pessoal qualquer.

Enunciar posições do topo de um pedestal com base em «convicções» do tipo «toda a gente sabe que é assim», ou seja, afirmar alguma coisa com base em rumores como se esses rumores fossem todos muito credíveis (claro que são credíveis - confirmam o que a pessoa quer ouvir, ora pois!), não serve de muito se não se conseguir ir além do diz-que-disse. 

Lamento, mas não basta despejar meia dúzia de ideias feitas para se estar a argumentar. E escrever ou falar num tom muito assertivo também não é o mesmo que argumentar. Principalmente quando roça a arrogância e o tonzinho moralista de quem se coloca a si próprio num pedestal qualquer especial em que, impoluto ou dotado de outra característica mágica qualquer, decide que sabe, e que portanto pode ignorar o que os outros dizem, e em vez disso tentar desqualificá-los.

Adoptar tons solenes e «dignos» não confere automaticamente solenidade ao que se diz. E quando o que se diz é um conjunto de lugares comuns, parece apenas pretensiosismo, e evidencia a futilidade e o vazio, em termos substantivos, daquilo que está a ser dito.

Tudo isto são truques. Nada têm a ver a ver com a lógica nem com a veracidade do que está a ser dito. Mas são formas muito eficazes de manipular a forma como aquilo que se diz é encarado. É uma boa forma de passar mensagens simplistas e fazê-las parecer algo mais do que isso, mas também uma forma de tentar conferir solenidade a ideias que de outra forma seriam atacadas - como a xenofobia ou o racismo.

Parte do debate com pessoas que enunciam posições de um pedestal é mostrar o quão imaginário esse pedestal é. Isso pode ser feito de várias formas. Mas torna o debate mais difícil. Principalmente quando não se tem um pedestal próprio de onde enunciar opiniões - sendo que as opiniões vão sempre divergir acerca de se um pedestal é merecido ou não (e quem veja um pedestal imaginário pode bem considerar que isso retira credibilidade ao que a pessoa diz, mesmo que a pessoa até esteja a dizer algo factualmente correcto). 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O fardo dos iluminados que nos querem oferecer o Paraíso

Há quem viva num mundo em que uma minoria de iluminados se confronta com uma vasta maioria de gente ingénua, ignorante, corrupta ou maléfica que anda a destruir o mundo. Mas a minoria de iluminados, e existem de todas as estirpes, sabe o que fazer, tem a solução, e a solução deles está correcta, sempre correcta, aconteça o que acontecer.

O mundo está então dividido nesses dois grupos, mas os nomes dados aos maus da fita variam. Por exemplo, para uns, os maus da fita são os «neoliberais fascistas» (em Portugal, há também a versão «salazarentos»). Para outros, os maus são os «socialistas» ou «estatistas». Quem não pensar exactamente como aqueles que pensam que os supostos neoliberais fascistas são os maus, ou é parvo, ou está a soldo dos ditos maus. Quem não pensar exactamente como aqueles que pensam que os «socialistas» ou «estatistas» são maus é, naturalmente, «socialista» ou «estatista» (ou «soviético», de vez em quando, possivelmente para os mais nostálgicos).

Numa coisa ambos os grupos concordam: aqueles de que gostem menos são «nazis». Não têm de defender o extermínio de judeus ou o corporativismo defendido por Hitler. Isso é secundário. O ponto fulcral é que são «nazis», porque são maus, e porque sim. Porque apesar de não defenderem o nazismo, se se distorcer o que essas pessoas pensam o suficiente, chega-se ao nazismo.

Em vez de encararem todo o espectro ideológico que por aí há, essa malta divide o mundo em dois grupos necessariamente antagónicos. O objectivo nunca poderá ser o compromisso, mas sim a «conversão». Não existem debates, existem textos a dizer que os outros são «neoliberais fascistas» ou «socialistas/estatistas/soviéticos» ou nazis, acompanhados de uma distorção da posição contrária.

Esses textos recebem depois muitos aplausos da restante malta que pensa que o mundo está dividido em dois, e que se considera parte do grupo de iluminados. Em resposta, um texto é escrito a deturpar a posição de quem escreveu o texto original, e assim por diante. Pelo meio, os verdadeiros nazis, fascistas, estalinistas e demais fãs de regimes totalitários muitas vezes nem aparecem nesses debates, que pouco mais servem que para trivializar as diversas formas de totalitarismo.

«Argumenta-se» por categorização. Fulano é fascista, diz um, de punho erguido. Beltrano é estatista, diz outro, em tom acusador. Ambos, naturalmente, com o tom de quem se leva muito a sério, e tem uma muito boa opinião de si próprio e dos seus amigos. Os outros, esses, os que pensam de forma diferente, são «imorais», defendem «imoralidades», não conhecem a «natureza humana» e são a causa dos males do mundo. Se toda a gente pensasse da mesma forma, aí estaríamos todos felizes e contentes, num paraíso terrestre levado a existir pela força da aplicação dos verdadeiros princípios, aqueles que mais se adequam à detalhadamente definida «natureza humana», ou o que seja.

Estes discursos exacerbados, em linguagem panfletária, tornam-se quase caricaturais, não só das posições contrárias, mas também das posições que os autores se dispõem a defender.

Tudo isto deve ser falha minha, no entanto, que não consigo ver a grandeza das constantes comparações com Hitler e Estaline enquanto forma de «argumento» em debates sobre os temas mais variados, ou que não consigo ver a elevação de distorcer as posições contrárias para se rebater a distorção - claro que, por vezes, a crença pode ser tão arreigada que pode bem acontecer que a distorção não seja voluntária. Nesse caso, o diagnóstico parece-me demasiadas vezes tender a passar pela pura e simples arrogância.

O fardo que não deverão carregar estas pessoas, da Esquerda à Direita, que sabem ter a solução, que sabem a Verdade, e o desespero que não deve ser verem-se rodeadas de «neoliberais fascistas» ou de «socialistas estatistas» por todos os lados, mesmo entre pessoas que digam defender os valores que os iluminados defendem, mas que não passam de traidores, ou de falsos iluminados. O desespero que não deve ser saber como seria o mundo perfeito e viver num mundo imperfeito, em que o Paraíso terrestre vai ter de esperar.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Os intérpretes

"(...)os signatários interpretam - e justamente - o crescente clamor que contra o Governo se ergue, como uma exigência(...)"
Olhando para a lista, conhecendo apenas a parte "pública" destas "pessoas públicas", não ponho em causa o democratismo de uma grande fatia.

Porém, a concepção de democracia que este tipo de iniciativa exala parece-me algo tresmalhada 
no sentido de perdida e desviada mas não, infelizmente, no de separada da manada i.e. original. Este douto conjunto de personalidades pelo seu percurso consensualmente brilhante apresenta-se assim com pompa como "intérprete" de uma espécie de vontade geral à Rousseau que, está claro!, não corresponde à vontade de qualquer maioria, nem de 99,9%, nem a qualquer combinação das preferências individuais das pessoas, mas antes àquilo que o Povo, maiúsculo, uno, indivísivel, está claro!, quer e que apenas os "intérpretes", está claro!, podem e sabem interpretar convenientemente. 

C'est à dire: sondagens?
eleições? Instituições democráticas em geral? Para quê? Isso são histórias de embalar, não servem para nada. Complicam tudo e não resolvem nada, sobretudo quando vão os seus resultados contra o que interpretam os intérpretes.
"No meio deste vendaval, as previsões que o Governo tem apresentado quanto ao PIB, ao emprego, ao consumo, ao investimento, ao défice, à dívida pública e ao mais que se sabe, têm sido, porque erróneas, reiteradamente revistas em baixa."
Ah! Mas os intérpretes, esses sim, para eles é claro que através da sua expertise em tudologia, que lhes permite saber tudo sobre "abismos", "ventos e marés" e outras coisas "nunca antes vistas" mas que estamos sempre a ver, têm a capacidade de ler o "clamor" da rua e não só mas também através dele a "vontade do povo".

E estão, nessa qualidade, "muito preocupados" com isto tudo. Serious business! Eu também, mas o círculo que limita as minhas inquietações é muito mais largo. Acontece que é preciso espaço para acomodar cabeças tão grandes como as suas...

Bom, mas pelo menos servem para dar boas notícias: só através deles ficámos a saber que as previsões do défice e da dívida "têm sido reiteradamente revistas em baixa"!


de Groningen, Países Baixos

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

As mais absolutas certezas e as mais profundas convicções

Comece-se com uma enorme dose de ignorância. Acrescente-se uma dose de ignorância sobre o nível de ignorância anterior. Polvilhe-se com umas noções básicas sobre um tema qualquer, mesmo que incoerentes, e uma enorme vontade de acreditar numa determinada coisa. Deixe-se a cozer no lume brando do teatro mediático e pronto. Temos as mais absolutas certezas e as mais profundas convicções.

São crenças. Inferências abusivas a partir de meia dúzia de dados, a que se atribui credibilidade muitas vezes precisamente por ajudarem a provar aquilo que se quer provar. A credibilidade é atribuída em função da utilidade daquele dado ser verdadeiro para apoiar a crença, para reforçar a certeza, para aprofundar a convicção, e não por qualquer critério de razoabilidade. Mesmo que estejamos perante nada mais que rumores.

Para apurar a certeza absoluta e a convicção profunda, abstenha-se de ouvir opiniões contrárias e ignorem-se dados que contrariem aquilo que está em causa. Coloque-se em causa a credibilidade de tudo o que não se coaduna com a opinião que se tem à partida. Coloque-se em causa a idoneidade de quem apresenta dados contrários a crença em questão. E ser desconfiado, quase paranóico, e ter enorme abertura ao pensamento mágico ajuda, também.

As mais absolutas certezas. As mais profundas convicções. Abertura apenas àquilo que se encontra de acordo com o que já se pensa - tudo o resto é para rejeitar. Confundir factos com opiniões e opiniões com factos. Confundir o que é desejável, ou aquilo que se deseja, com o que é real. Nos casos mais extremos, uma profunda arrogância, narcisismo e sobranceria - o ego depende das certezas vazias e as convicções vazias sustentam o ego. O pensamento desestruturado, tal como o mágico, também ajuda.

As mais absolutas certezas e as mais profundas convicções, particularmente as assentes em teorias da conspiração sem ponta por onde se lhes pegue, não parecem ajudar nada. No entanto, o fascínio que exercem é patente. A arrogância misturada com a ignorância é uma combinação explosiva. Fecha as pessoas numa jaula mental, de onde apenas muito a custo conseguem sair. Destrói a possibilidade de diálogo e pode dar num feroz pendor destrutivo.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Arrogância, Humildade e Respeitinho

O João Vasco, no Esquerda Republicana, escreveu um artigo a que chamou «Individualismo não é Egoísmo». Filipe Moura, autor do mesmo blogue, acusou nos comentários o João Vasco de «arrogância» por dizer que as pessoas cometiam «erros» e apontar aquilo que, na opinião dele, são os seus erros.

A minha experiência com o João Vasco, com quem já tive o prazer de debater em pessoa, é o de que o João Vasco não é arrogante. Seria arrogante se não partisse da posição de abertura com a qual me parece partir sempre para os debates: tem as suas convicções mas está aberto a revê-las com base em argumentação contrária que considere convincente. Ora, é desta posição de abertura intelectual que o João Vasco parte, o que me parece o oposto da arrogância.

Identificar aquilo que se considera ser erros no pensamento dos outros não significa que nos consideramos acima do erro. Não significa também que consideremos as outras pessoas estúpidas, imbecis, ignorantes ou idiotas. Significa simplesmente que não concordamos com essas pessoas de uma forma em que as posições são mutuamente exclusivas, ou consideramos que a posição em causa tem consequências nefastas que urge combater.

Eu não concordo com tudo o que o João Vasco diz e pensa. Penso que comete erros de diversa índole. Duvido que o João Vasco fique muito ofendido comigo por lhe dizer isto. Aliás, penso que o considerará uma afirmação trivial: ele sabe que é tão capaz de errar como qualquer outro ser humano. Sabe também que não é omnisciente e que as suas opiniões são tão subjectivas como as dos outros. Mas isso não lhe retira o direito de as defender de forma convicta e, quando identifica erros em pensamento alheio, apontá-los e explicar porque os considera erros.

Defender uma posição de forma convicta não é uma forma de arrogância. Dizer que as posições contrárias estão erradas e explicar porquê é a base do mais normal e banal dos debates. Uma cultura de debate implica desenvolver uma capacidade para lidar com a crítica, mesmo com a crítica mais agressiva, mesmo com a crítica mais directa, respondendo-lhe com contra-argumentos. Não é uma forma de arrogância achar que os outros estão errados e nós estamos certos na medida em que essa convicção seja fundada em argumentos válidos e sólidos e, principalmente, seja fundamentalmente transitória. Ou seja, a convicção poderá alterar-se em face de novos argumentos.

Impera em Portugal a cultura do «respeitinho». Por toda a gente, mas especialmente por autoridades. Ai de quem ouse pôr em causa o que diz uma autoridade qualquer sem ser ele próprio reconhecido como autoridade. Ao mesmo tempo, ai de quem ouse ter posições e defendê-las de forma convicta, não assumindo sempre que o resultado do debate tem de ser, no final, «concordamos em discordar». Aliás, já vi as coisas chegarem ao ponto em que basta argumentar em prol de uma posição contrária àquela que a outra pessoa defende para se ser acusado de «censura» e de querer mandar no que os outros pensam.

Há debates em que a posição no final vai ser «concordamos em discordar», e vão variar de pessoa para pessoa. Mas há outros em que não, e também vão variar de pessoa para pessoa. Há debates que a pessoa considera ser importantes. Há questões que a pessoa considera ser urgentes. Há erros que a pessoa considera levarem a consequências nefastas: no caso da confusão do individualismo com o egoísmo (tema do artigo do João Vasco), a possibilidade do aproveitamento dessa confusão para uma promoção da homogeneização da sociedade e submissão perante uma qualquer autoridade.

Uma cultura de debate é uma cultura de choque de ideias. É uma cultura em que se vai ler e ouvir coisas de que não se gosta. Mas é desse choque que emergem novas ideias e que as ideias se vão seleccionando. É nesse choque que consistem os debates vigorosos e dinâmicos que é importante ter. E eu prefiro que me digam que eu estou errado e me expliquem porquê, mesmo que eu não concorde, no âmbito de um debate em que a outra pessoa parte da posição de abertura intelectual que descrevi acima, do que uma cultura de «respeitinho», em que todos «concordamos em discordar» e não se chega a lado nenhum.