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sexta-feira, 15 de junho de 2012

As Ciências Sociais e Comportamentais como resposta à crise

Em 2012 a grande maioria dos artigos publicados em blogs começam por referir os tempos de crise que vivemos. São também muitos os artigos, e opiniões expressas verbalmente, que apelam a uma maior produção tecnológica, tanto em termos de investigação e desenvolvimento como em termos produtivos.

Neste artigo, tal como todos os outros, apelo aos tempos de crise que vivemos para iniciar a linha de pensamento que pretendo apresentar. No entanto, ao contrário de outros, defendo que a saída da crise não passa pela inovação tecnológica mas antes pela inovação económica, social e política. A crise que atravessamos é caracterizada não por uma escassez tecnológica mas antes pela urgência de uma transformação social, política e económica que  responda aos desafios que se colocam. É neste sentido de estranhar a noticia  avançada recentemente pela comunicação social  que dá conta da enfâse colocada pelo Governo na formação de licenciados em áreas tipicamente tecnológicas (ex. engenharia, matemática, etc.). 

Esta atuação  por parte do Governo só espanta os menos atentos. Na verdade, também no que diz respeito à investigação e desenvolvimento, as atenções têm estado viradas para o desenvolvimento tecnológico sendo que tem existido um desinvestimento no que diz respeito às Ciências Sociais e Comportamentais. Ora, a crise que atravessamos não se prende com a falta de tecnologia, mas sim, como já  foi afirmado neste artigo com a falta de soluções sociais, politicas e económicas. No fundo o que precisamos é que as sociedades desenvolvam novas formas de funcionar e isto só se consegue com o investimento em investigação e desenvolvimento de inovação social.

Neste sentido, e perante crises como a atual, os nossos esforços deviam estar concentrados, entre outras, nas seguintes áreas:

- Economia, com o objetivo de se desenvolverem novos modelos económicos e ajustar os modelos já existentes. A este nível, têm sido feitos, noutras partes do globo, alguns esforços nomeadamente ao nível da Economia comportamental, Economia Comportamental e Economia da Felicidade e Bem Estar.

- Sociologia, com o objetivo de se desenvolverem novos modelos de desenvolvimento social, estimulando a investigação em áreas como a inovação social.

- Ciência Política, no sentido de se ajustarem os sistemas políticos a novas realidades e aos novos desafios. Por exemplo, seria interessante aprofundar o estudo em torno sistemas eleitorais nacionais e europeus alternativos. 

- Psicologia, no sentido do aprofundamento de áreas emergentes da psicologia, nomeadamente da psicologia social. A psicologia e ciências comportamentais podem dar um contributo nomeadamente no que diz respeito à compreensão dos processos psicológicos e comportamentais que deram origem à crise atual, assim como podem avançar com possíveis soluções ao propor novos modelo de desenvolvimento (por exemplo através da psicologia positiva e estudos da Felicidade).

Só compreendendo a atual situação social, politica e económica é que conseguimos avançar para soluções de médio e longo prazo.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Eu Construo Novos Paradigmas

As galinhas põem ovos, os cães ladram, eu construo novos paradigmas.

Ao pequeno-almoço, é logo dois de uma vez. Para começar bem a manhã. Depois, aproveito ainda sou capaz de construir um terceiro antes de almoço, só para ajudar a passar o tempo.

Ao almoço, desconstruo a realidade e analiso criticamente as relações humanos. Dedico-me à hermenêutica universal, de forma a poder cimentar as minhas posições apenas nos símbolos com melhor pedigree.

Tendo interpretado o universo, sinto-me cosmicamente impelido a libertar a Humanidade, anunciando-lhe um novo paradigma. Porque sou um fixe e não sou imperialista - tentem oferecer-me uma imperial e vão ver como eu a recuso.

As galinhas ladram, os cães põem ovos, eu construo novos paradigmas.

A meio da tarde, já devo ir em cinco ou seis, talvez cinco e meio. Convém não abusar, que depois não dá para construir novos paradigmas por causa do cansaço. Transcender o cientismo e tocar na metafísica espiritual da simbologia cósmica cansa - e abre o apetite.

Portanto, lá vou eu lanchar. Ao lanche, bebo a luz das estrelas e como pedacinhos do Sol. Não me deixo levar pelos rabanetes que me oferecem porque sei que é apenas uma manifestação do antigo paradigma. Do paradigma que existia antes dos sete paradigmas que eu já criei desde que me levantei.

As galinhas constroem novos paradigmas, os cães constroem novos paradigmas e eu, se calhar, ladro e ponho ovos. Ainda não decidi bem. Ainda não interpretei devidamente o Cosmos que me rodeia para descobrir qual a forma mais metafísica para comparar o pi a um chouriço.

Porque, como é evidente, o pi é uma lula, não um chouriço, mas também ao mesmo tempo uma salada. E na libertação do pi encontra-se a fusão dos princípios naturais que nos levará ao próximo paradigma.

De onde se retira o paradigma do meu almoço de amanhã: lulas com salada (se houver). Porque o Cosmos assim mo ditou - e quem sou eu para discutir com a melhor interpretação simbólica da Física Quântica?

(Nota: Este texto apenas deve ser levado a sério às Quartas-Feiras de cada mês. No resto da semana, nem por isso.)

domingo, 3 de junho de 2012

Mais Breves Apontamentos Económicos

Neste artigo apresentei doze pontos a convidar à reflexão sobre a Economia.

Queria focar-me nestes:
  • A Economia é uma ciência comportamental (veja-se a recente aproximação entre a Economia a Psicologia).
  • A Economia não é uma disciplina normativa.
  • A Economia não é uma ideologia.
  • A Economia, enquanto ciência comportamental, e não sendo uma disciplina normativa, é neutra em relação à relação entre «mercado» e «Estado».

A Economia estuda a escolha na afectação de recursos por parte de entidades pensantes (tanto seres humanos como outros animais) num ambiente de escassez. A aproximação da Economia entre a Psicologia dá-se precisamente porque entender como é que funciona a capacidade de fazer escolhas pode ser importante para entender as escolhas que são feitas. (Há quem discorde, partindo do pressuposto que não é possível medir como é que fazemos escolhas e que nos devemos ficar por uma análise das escolhas em si.)

Sendo a Economia uma ciência comportamental, a sua função é descritiva e explicativa de fenómenos reais. Não é uma disciplina normativa - da Economia em si não se retiram padrões de comportamento a adoptar para lidar com qualquer situação. Retira-se, isso sim, uma forma de tentar compreender de onde vêm esses padrões de comportamento e quais as consequências previsíveis dos mesmos.

Assim, a Economia não é uma ideologia. Da Economia não se retira como é que determinada comunidade deve ser organizada. No entanto, podem apresentar-se, naturalmente, argumentos económicos para justificar determinadas posições a este respeito. Mas esses argumentos económicos vão sempre ser mediados por conjuntos de preferências eminentemente subjectivos sobre que valores devem ser preservados na interacção entre os vários membros de uma determinada comunidade.

Daí que eu diga que a Economia é neutra no que toca à relação entre «mercado» e «Estado». Qual deve ser essa relação é uma questão que vai para além da descrição e da explicação das escolhas face a escassez. A Economia tenta explicar o que é, mas não nos diz o que deve ser, embora nos possa ajudar a encontrar soluções para atingirmos determinados objectivos que nos proponhamos a atingir.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Manifesto Ensino Superior

As instituições de ensino superior devem ser consideradas como o espaço privilegiado para a geração de conhecimento, e a principal fonte de desenvolvimento económico de um país. Se pensarmos por exemplo nos Estados Unidos da América, verificamos que grandes empresas surgiram precisamente no contexto académico (e.g. Facebook ou a Google). Em Portugal, existem também alguns casos de sucesso, como por exemplo o portal Sapo (criado na Universidade de Aveiro).

No entanto, as Universidades e Politécnicos Portugueses ainda ficam aquém de outros países, no que diz respeito à contribuição para o desenvolvimento económico e social do país. È por isso urgente uma reforma no ensino superior, que permita uma maior afirmação da investigação e ensino. Esta reforma, deve seguir os seguintes princípios:

Mais e melhor investimento no ensino superior

Um dos problemas com que as instituições de ensino superior se deparam actualmente prende-se com o investimento. Este facto deve-se, em grande parte às limitações financeiras do governo central. Neste sentido, propomos que um aumento do investimento, na componente formativa, se processe através de uma transferência dos custos, dos contribuintes para os principais interessados, os estudantes.

Por outro lado, defendemos que deve existir uma maior autonomia das instituições no que diz respeito à investigação (científica e aplicada), sendo que devem ser estas a avaliar a viabilidade e qualidade dos projectos e não uma entidade central. Para que isto aconteça, as verbas alocadas à investigação devem ser atribuídas não a projectos específicos, mas sim às instituições, e respectivas unidades de investigação, tendo em conta a sua avaliação (e.g. número de patentes registadas por projecto, número de publicações por doutorado, etc.).

Os estudantes devem ter informação que permita uma escolha informada

A maioria dos candidatos ao ensino superior, não têm informação disponível que lhes permita escolher o curso e a instituição de ensino de uma forma responsável. Esta escolha é, tradicionalmente, feita tendo em conta critérios não relacionados com a qualidade da instituição e com a empregabilidade dos cursos e das instituições de ensino superior (e.g. proximidade, preconceitos, etc.).

Neste sentido, torna-se essencial criar mecanismos de informação que permitam os candidatos ter acesso não só, como actualmente, às médias de entrada de um determinado curso e instituição, mas também a aspectos como a taxa de empregabilidade, reputação científica e técnica, ligações a outras universidades/politécnicos europeus, etc.

A frequência do ensino superior deve estar acessível a qualquer pessoa

A frequência do ensino superior deve depender exclusivamente da motivação, interesse e capacidades de uma pessoa. Apesar de hoje em dia o ensino superior estar acessível a muito mais gente do que estava há 20 anos atrás, a verdade é que ainda existem muitos jovens impossibilitados de frequentar um curso superior (ou que têm de desistir a meio) devido à sua condição financeira.

Deve por isso, ser criado um sistema que permita o apoio a todos os jovens que pretendam frequentar o ensino superior, com especial destaque para aqueles que vêm de meios mais desfavorecidos. Neste apoio deve estar, não só incluído o apoio aos estudos, mas também o apoio em relação aos custos de vida dos estudantes durante a frequência do ensino superior.

Os estudantes apenas devem pagar depois de começarem a trabalhar

Como já foi referido, devem ser os estudantes os principais financiadores do ensino superior (em vez de todos os contribuintes). Por outro lado, actualmente, é pedido um enorme esforço financeiro aos estudantes, que se vêm obrigados a recorrer a empréstimos bancários ou às suas famílias, para financiar os seus estudos. Rejeitamos esta abordagem.

Defendemos que os estudantes devem começar a pagar apenas quando começarem a trabalhar, através de um plano financeiro. Neste sentido, o custo da formação superior deve ser suportada pelo estudante e não pela sua família. Por outro lado o estudante, ao não ter que pagar adiantadamente, não se sente obrigado a recorrer a um empréstimo bancário.

Os pagamentos dos estudantes devem ser suportáveis

Um grau académico deve ser visto como um investimento, como tal o sistema deve ter a preocupação de garantir o retorno aos estudantes. Neste sentido, deve existir um limite salarial abaixo do qual os antigos estudantes estão isentos de pagamento. Isto permitirá uma responsabilização do sistema, a qual se deve reflectir nas instituições de ensino superior.

Desta forma o pagamento do aluno deve ser feito através de um plano financeiro que tenha por base os seus rendimentos (por exemplo através de uma percentagem do seu ordenado). Por outro lado, devem ser tidas em conta não só as despesas com a educação mas também as despesas relacionadas com o custo de vida (e.g. alojamento, alimentação, etc.).

Outras formas de financiamento

Devem ser criados mecanismos para a existência de outras formas de financiamento do ensino superior. À semelhança do que já acontece nos Estados Unidos da América, deve ser incentivado o sistema de donativos através do qual antigos alunos e “amigos” transferem directamente dinheiro para as instituições de ensino superior.

Outro mecanismo possível passa, à semelhança do que acontece com as instituições de utilidade pública, pela possibilidade dos cidadãos encaminharem parte do seu IRS para uma instituição de ensino superior à sua escolha.

(exemplo daquilo que podia ser um manifesto liberal para o ensino superior, inspirado em: www.independent.gov.uk/browne-report )