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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O efeito prático

As ideologias dão hierarquias de valores e ajudam a estabelecer objectivos. Ajudam também a seleccionar os meios, dado que criam uma hierarquia de valores que permite aferir quais esses mesmos meios. Mas não ajudam a determinar se um meio é ou não é adequado a um determinado fim. Para se aferir isso, é preciso ou estudar os seus efeitos práticos (caso já tenha sido implementado), ou tentar prever quais poderão ser (com base em experiência e teoria relevantes). E isto inclui ver quais poderão ser consequências indesejáveis de um meio que à primeira vista pareça ser adequado a um determinado fim.

Não basta enunciar um determinado objectivo e depois decidir que se vai utilizar um determinado meio porque se acha que esse meio é adequado. E depois de se implementar aquilo que se defende, é fundamental aferir o efeito prático no terreno daquilo que se implementou, de forma a determinar se está a ter o efeito pretendido ou não, ou se até está a ter efeitos perniciosos e a agravar o problema que é suposto estar a resolver.

Claro que muitas vezes estes debates são complexos. Envolvem conhecer dinâmicas e sistemas também eles complexos, e a forma como as medidas os influenciam não será muitas vezes unívoca. Conseguir simplificar estes debates sem os tornar simplistas é uma tarefa difícil mas importante. Os meios de comunicação social deviam desempenhar um papel relevante neste domínio, ajudando a clarificar posições e argumentos técnicos, de forma simples mas rigorosa, de forma a permitir que mesmo leigos na matéria consigam acompanhar e mesmo participar nos debates de forma mais informada.

Não quer isto dizer que o meu ideal seja um governo de supostos iluminados peritos que em teoria dominem as matérias que se propõem tratar. Longe disso. Mas a intervenção de técnicos qualificados que estudaram os assuntos de forma empírica e o mais isenta possível é importante. Não porque tenhamos de seguir as suas opções políticas. Mas porque ajudam a criar alternativas práticas que se possam seguir tendo em conta os objectivos políticos que se determinaram.

O debate político é inerentemente ideológico. Mas isso não significa que se deva ignorar a parte técnica. Antes pelo contrário. Devemos ter vigorosos debates ideológicos e técnicos sobre as medidas que nos propomos implementar. E depois avaliá-las consecutivamente para ver se estão a ter os efeitos práticos desejados.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Ideologia, Legitimidade e o Regime


Uma das questões que mais se ouve aquando de qualquer discussão sobre a China contemporânea é a da natureza do regime. Será comunismo ou capitalismo, capitalismo de estado, socialismo, socialismo com características chinesas e por aí fora. Os rótulos são incontáveis e provavelmente irrelevantes. A questão essencial a meu ver está ligada aos mecanismos de sustentação e reforço da legitimidade do regime.
Segundo os ditames do Marxismo-Leninismo, a prática Marxista na Rússia às mãos de Lenine e uma das bases ideológicas do Partido Comunista Chinês (PCC), a revolução é liderada por um partido de vanguarda num regime de ditadura do proletariado. O estado recorre a instrumentos como a abolição da propriedade privada dos meios de produção e uma economia planificada. Estes elementos estão ainda, de uma forma ou de outra, presentes no ordenamento político chinês. O partido de vanguarda é o PCC, cuja legitimidade na liderança da revolução ainda em curso não está sujeita a qualquer espécie de escrutínio. A abolição da propriedade privada dos meios de produção, não sendo total, expressa-se nos vários conglomerados nas mãos do estado, especialmente em sectores considerados estratégicos. As julgar pelos valores nesta peça, as dez maiores empresas chinesas em termos de receita são todas estatais ou estão sob controlo maioritário estatal e as 20 maiores empresas estatais corresponderão a cerca de 50% do PIB chinês. Por último, os planos quinquenais são a principal expressão da economia planificada, que apesar de não estar sujeita a uma microgestão soviética, mantém um fio condutor, como as já mencionadas empresas estatais e por exemplo os enormes programas de obras públicas e o estabelecimento de estalões tecnológicos para a computação ou telecomunicações.
Para além desta apreciação superficial convém analisar também qual a moldura ideológica a que o partido recorre para justificar a sua acção. Aqui teremos de distinguir entre dois tipo de ideologia, a prática e a fundamental, essencialmente os meios e os fins. Um dos desafios aos quais os estados do antigo bloco de leste não conseguiram responder foi o da modernização, com todos os seus efeitos secundários indesejados. Isto porque aqueles regimes foram incapazes de compatibilizar os seus objectivos finais, a utopia comunista, com a realidade concreta da modernização. Pelo contrário, a elite Chinesa, sem nunca abdicar do seu objectivo final, estabeleceu a modernização e o seu corolário, o desenvolvimento económico, como apenas um passo no caminho para o comunismo. Assim, aquilo que ditou pelo menos em parte o fim do comunismo no leste europeu, tornou-se agora um enorme reforço da aceitação por parte da população chinesa da permanência no poder por parte do PCC. Só o partido pode liderar este processo de modernização e desenvolvimento que a manter-se aos ritmos actuais manterá os líderes chineses firmemente no poder. Trata-se contudo de uma espada de dois gumes, pois no dia em que a economia crescer menos e não forem criadas as dezenas de milhões de postos de trabalho anuais necessários para absorver uma enorme população rural em migração para os centros urbanos, a posição do partido tornar-se-à extremamente precária. De facto a economia chinesa nos últimos anos não tem crescido a ritmos tão altos (mas ainda fantásticos para os nossos miseráveis padrões) e é possível que a estratégia de simples acumulação de capital já não esteja a funcionar, mas isso é uma história para outra altura.

domingo, 3 de junho de 2012

Mais Breves Apontamentos Económicos

Neste artigo apresentei doze pontos a convidar à reflexão sobre a Economia.

Queria focar-me nestes:
  • A Economia é uma ciência comportamental (veja-se a recente aproximação entre a Economia a Psicologia).
  • A Economia não é uma disciplina normativa.
  • A Economia não é uma ideologia.
  • A Economia, enquanto ciência comportamental, e não sendo uma disciplina normativa, é neutra em relação à relação entre «mercado» e «Estado».

A Economia estuda a escolha na afectação de recursos por parte de entidades pensantes (tanto seres humanos como outros animais) num ambiente de escassez. A aproximação da Economia entre a Psicologia dá-se precisamente porque entender como é que funciona a capacidade de fazer escolhas pode ser importante para entender as escolhas que são feitas. (Há quem discorde, partindo do pressuposto que não é possível medir como é que fazemos escolhas e que nos devemos ficar por uma análise das escolhas em si.)

Sendo a Economia uma ciência comportamental, a sua função é descritiva e explicativa de fenómenos reais. Não é uma disciplina normativa - da Economia em si não se retiram padrões de comportamento a adoptar para lidar com qualquer situação. Retira-se, isso sim, uma forma de tentar compreender de onde vêm esses padrões de comportamento e quais as consequências previsíveis dos mesmos.

Assim, a Economia não é uma ideologia. Da Economia não se retira como é que determinada comunidade deve ser organizada. No entanto, podem apresentar-se, naturalmente, argumentos económicos para justificar determinadas posições a este respeito. Mas esses argumentos económicos vão sempre ser mediados por conjuntos de preferências eminentemente subjectivos sobre que valores devem ser preservados na interacção entre os vários membros de uma determinada comunidade.

Daí que eu diga que a Economia é neutra no que toca à relação entre «mercado» e «Estado». Qual deve ser essa relação é uma questão que vai para além da descrição e da explicação das escolhas face a escassez. A Economia tenta explicar o que é, mas não nos diz o que deve ser, embora nos possa ajudar a encontrar soluções para atingirmos determinados objectivos que nos proponhamos a atingir.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A banalização dos totalitarismos

À Esquerda e à Direita, há quem pense que usa um argumento por chamar «totalitário» à parte contrária. Depois, há aqueles que gostam de chamar «totalitárias» a todas as ideologias. Pelo meio, temos o pessoal que acaba acusado de ser «totalitário», por vezes pelos dois extremos, e tenta ter um debate.

De vez em quando, a esta banalização do totalitarismo são acrescentadas variadas teorias da conspiração (há uma para todos os gostos), geralmente variações da existência de poderes ocultos e desígnios insondáveis que pretendem destruir o mundo para seu proveito próprio. E o suposto «totalitário» ou é um agente da conspiração ou é um ingénuo que é instrumentalizado por esta.

Há gente que parece de facto viver num mundo em que em cada esquina há um Estaline a defender «políticas de esquerda» ou um Hitler a defender «políticas de direita», sem meio termo. O sangue derramado por estes dois tiranos em nome das suas loucuras é trivializado por gente que pensa que chacinar milhões de pessoas é mais ou menos equivalente a aumentar impostos ou diminuir o nível de regulação em certos sectores.

Uma versão actual deste tipo de banalização dos autoritarismos, das ditaduras e dos totalitarismos é a tentativa de comparação das revoltas contra ditaduras da «Primavera Árabe» com os grupos dos Indignados e do «Occupy Wall Street». Por muito que a política teime em cometer erros cá e também, muito provavelmente, nos EUA, bem como noutros países, há uma diferença de grau relevante quando comparado com a chacina na Síria, a guerra líbia ou as rajadas de metralhadora no Egipto.

Um passatempo favorito de quem gosta de banalizar os totalitarismos com o seu discurso tende a ser a procura de retirar legitimidade à nossa democracia parlamentar. Depois, varia: ou temos velhas noções anarquistas ou de democracia directa apresentadas como grandes novidades, ou temos apelos a «verdadeira democracia» que mais não são do que disfarçados apelos a um regime autoritário. Ou então, muitas vezes, temos uma confusão que não se entende, desestruturada e anti-ideológica, assente em «slogans» que pouco vão para além de chavões triviais.

Não podemos cair na banalização dos totalitarismos. É preciso confrontar os problemas de governação política a nível local, estadual, continental e global com base em muito mais do que teorias da conspiração e pensamento desestruturado. É fundamental procurarmos ir ao cerne dos problemas, em vez de nos ficarmos pela acrítica regurgitação de teses fundamentadas em rumores, na criação de padrões fantasistas ou pura simplesmente em falsificações.

Precisamos de ter alicerces claros para as nossas posições, de assumir esses alicerces e de confrontar as nossas propostas uma com as outras. Correremos o risco de nos acusarem de sermos «fascistas», «estatistas» e todo o tipo de conversa fiada, mas o risco vale a pena. Porque só assim conseguimos marcar posição e combater a banalização dos totalitarismos.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Linguagem panfletária

Há diversos estilos e registos e formas de falar, uns mais formais e outros mais informais. Uma forma de falar é a utilização constante de linguagem panfletária. A linguagem panfletária (vem de «panfleto», naturalmente) consiste na utilização constante de «slogans», na simplificação extrema das ideias que se quer transmitir, e na citação constante de supostas autoridades neste ou naquela matéria e na linguagem carregada (ou seja, o menos neutra possível).

Discutir contra alguém que use linguagem deste tipo é o mesmo que discutir com um panfleto. Traduz-se num convite a um comício político do mais parcial que se possa imaginar. Cada palavra é medida de forma precisa para ter a carga mais negativa ou mais positiva que possa alguma vez ter, enquanto os «slogans» preferidos são apresentados como se de argumentos se tratassem.

A linguagem panfletária em excesso reduz o debate político ao mínimo denominador comum, descaracteriza ambas as posições em debate e dificulta a capacidade de se ter um debate com «nuances». Torna os debates cansativos, repetitivos e circulares. Ao mesmo tempo, torna mais difícil que se chegue a um compromisso, dado que, mesmo que as posições não estejam assim tão longe umas das outras, a linguagem utilizada afasta-as e extrema a discussão.

Não por acaso, a linguagem panfletária é muitas vezes usada para esconder o quão próximas certas posições são. Para fingir que se faz a diferença, extrema-se a forma de falar. Para marcar posição, em vez de se dizer algo de substantivo, usa-se palavras mais chocantes e «fortes» para dizer as coisas. No fundo, no fundo, não se diz nada de especial. Mas a forma utilizada é suficiente para dar a aparência de substância, devido à reacção das pessoas às palavras utilizadas.

Aturar alguém que, fora do debate público, insiste em falar constantemente utilizando este tipo de linguagem é das experiências mais irritantes e intelectualmente cansativas por que alguém pode passar. Debater com essas pessoas é mais ou menos equivalente a atirar argumentos contra uma parede, embora possa ser útil quer para conhecer as versões mais básicas de certas posições, quer para treinar aturar gente irritante num contexto informal e sem responsabilidades de maior. 

Claro que quando se combina a utilização constante de linguagem panfletária com a necessidade que algumas dessas pessoas têm de dar constantemente a sua opinião sobre tudo, temos uma receita para o desastre (e, possivelmente, alguém se considera parte de uma Vanguarda Esclarecida). Nesses casos, ditam as boas práticas da preservação da sanidade mental que se leve tudo com bom humor, ou pelo menos com relativa indiferença, sempre respeitando as opiniões contrárias.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Marcar posição

É preciso que as pessoas assumam o que pensam e porque pensam dessa forma. Serve para clarificar o debate. E quando o fazem, convém fazê-lo sem medos, mesmo em condições adversas.

O Liberalismo em Portugal, tal como as ideologias em geral, é muito mal conhecido e, principalmente, tem mau nome. Não ajuda a atitude de certos auto-proclamados liberais que por aí andam, mas a verdade é que fundamentalmente o problema é que pura e simplesmente o Liberalismo acaba, em Portugal, por se dever definido por quem o despreza e atacada. Pelo que abundam as distorções, naturalmente.

O Federalismo, num contexto de crise a nível europeu, e de afastamento entre as pessoas e a União Europeia, também não é uma posição fácil de defender. No entanto, não o defender de forma convicta, clara e precisa é deixar espaço para que o Federalismo seja definido por quem não o quer, ou não seja definido na sua plenitude. Torna difícil travar debates, da mesma forma que é difícil travar debates enquanto liberal em Portugal, porque o plano está inclinado à partida.

Para mudar este estado de coisas, é preciso marcar posição. É preciso dizer, sem medo, que se é liberal, que se é federalista, e dar a cara. O mesmo se aplica a qualquer outra posição, aliás. Não dar a cara por aquilo que defendemos é ser derrotado à partida, deixando não apenas que outras ideias triunfem sem escrutínio, mas também que aquilo que defendemos acabe definido pelos seus opositores.

O plano só deixa de estar inclinado para um lado se o outro lado fizer por isso. E ninguém o fará por ele.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

As Vanguardas Esclarecidas

Não faltam candidatos a membros das Vanguardas Esclarecidas. À Esquerda e à Direita, que isto da arrogância epistemológica não tem dono no espectro político. O que distingue as Vanguardas Esclarecidas é, principalmente, o tom, quer de voz, quer ao escrever.

As Vanguardas Esclarecidas têm muito bom humor. O sarcasmo escorre em cada palavra que dedicam aos outros, ignorantes, que delas discordam. As referências, elas, também jorram nos seus textos, sempre encapsuladas por simplificações, quando não graves distorções (normalmente, no caso de gente com quem o representante da Vanguarda não concorda), daquilo que as figuras referidas dizem ou pensam.

As Vanguardas Esclarecidas possuem o monopólio da Verdade, que partilham com os tolos que as rodeiam de forma majestática, com o desdém de um Rei que atira pérolas a porcos. O «povo» para estas Vanguardas Esclarecidas é geralmente considerado ignorante, facilmente manipulável, estúpido e, naturalmente, inferior intelectualmente aos representantes das Vanguardas.

Aqueles que discordem das Vanguardas são insultados. A sua inteligência é questionada. As suas teses são apresentadas como anedotas. E toca a colocar um vídeo no «YouTube» de que um representante da Vanguarda Esclarecida gosta em que se prova, em cinco minutos, que a Verdade Absoluta está naquilo que o representante da Vanguarda Esclarecida pensa. Se for com bonecos, ainda melhor.

As Vanguardas Esclarecidas têm os seus Profetas. Os Profetas são religiosamente citados. Os analistas dos Profetas são religiosamente citados. Os seus argumentos são repetidos até à exaustão. Porque nesses argumentos está contida e única legítima e correcta interpretação possível da Realidade. E todos os outros vivem num mundo de fantasia, longe das maravilhas da Verdade Absoluta.

As Vanguardas Esclarecidas anunciam um Mundo Novo, no futuro, em que o seu ideal perfeito por definição poderá existir nesta Terra que não o merece, passando os seres humanos a viver em perfeita e verdadeira harmonia, liberdade, igualdade, paz, sossego e felicidade. Ascender à perfeição terrena e transformar o mundo numa utopia - eis o objectivo de todas as Vanguardas Esclarecidas. 

E quem não concorda, então é porque não percebe, não sabe, não entende, não compreende. E é burro.

Como eu.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Princípio, meio e fim

«Os fins não justificam os meios.»

Ouve-se isto muitas vezes.

Mas então, o que justifica os meios?

Porque é que alguém usa certos meios senão para atingir certos fins?

Ou seja, os fins justificam os meios - mas não todos.

Porquê? 

Porque há mais do que um fim. Há mais do que um objectivo a atingir. Há mais do que um valor a proteger. Pelo que nem todos os meios são legítimos para atingir um determinado fim.

Assim, os fins justificam alguns meios - aqueles que não ponham indevidamente em causa outros fins que também se pretenda atingir.

Fundamental, então, é decidir que fins se quer atingir, que valores se quer proteger e porquê. Porque isso é a justificação última para os meios que vão ser utilizados. Mas também porque há recursos escassos e nem tudo se pode fazer.

Assim, porquê esses fins e não outros? E é aqui que vão surgir as diferenças fundamentais entre ideologias. Não curiosamente, é ao nível dos valores que querem proteger e que consideram legitimar o seu modelo de comunidade.

É importante que esses fins sejam tornados claros para todos e bem explicados. O cerne do debate político está aqui, nesta discussão sobre fins e valores. Quanto mais clara for essa discussão, mais claro se torna aquilo que está verdadeiramente em causa e mais claro se torna a escolha que existe.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A guerra pelas palavras (II): Os puros e a ideologia

Os «puros» não se querem «sujar» com quaisquer compromissos, acusando de ser traidor quem o faça. Fazem ainda outra coisa, no entanto. Enquanto ideologias extremistas procuram apropriar-se e distorcer o sentido habitual de conceitos como «democracia» e «liberdade», procurando através dessa apropriação legitimar o seu discurso, os «puros» defendem, passe o pleonasmo, a mais perfeita «pureza ideológica». Que é como quem diz: os «puros» são donos e senhores das ideologias que professam e dos conceitos que as definem. E quem se desvie um milímetro do que é defendido pelos «puros», pura e simplesmente defende outra ideologia qualquer - e é visto como um perigo para a «pureza» da ideologia em causa.

Os puros não querem apenas que o mundo seja feito à sua imagem e semelhança - ou à imagem e semelhança das suas ideias - mas também que as ideias que defendem sejam cabalmente vistas como as únicas verdadeiramente representativas da ideologia que professam. Aqueles que se reclamem defensores da ideologia em causa mas não partilhem a visão purista são encarados como perniciosos agentes infiltrados de outras ideologias, temíveis vírus ideológicos que ameaçam destruir a verdade dos conceitos puristas. E claro: apenas o conjunto de ideias dos «puros» é válido, lógico, legítimo e aceitável - todos os outros são de alguma forma contra natura e objectivamente errados.

Se por um lado temos extremistas a querer utilizar conceitos positivamente encarados pela população para legitimar e mascarar as suas ideias, por outro temos os «puros» (outros extremistas?) a querer reduzir as ideologias que defendem àquilo que eles pensam. Enquanto um grupo pretende apropriar-se de conceitos para lhes alterar o significado, o outro pretende-se proprietário de certos conceitos e portanto o único grupo legitimado a defendê-los e até a defini-los. E ao fazê-lo, vão acusar quem quer que com eles discorde em relação a essas questões de deturpar a pureza dos conceitos.

Não é isso que pretendo fazer, note-se, quando reclamo que devemos intervir no debate público no sentido de clarificar conceitos e posições. Eu não me considero dono dos conceitos de «democracia» ou «liberdade». Mas considero que esses conceitos podem ser equívocos, e que é preciso explicar bem o que se entende por «democracia» ou «liberdade» ao utilizá-los. E entendo também que esses conceitos podem bem ser usados como máscara para esconder outras ideias, e que também isso tem de ser trazido à luz do dia.

Para que o debate público funcione devidamente, as cartas têm de estar em cima da mesa. É preciso que se perceba o que está a ser dito e com que fundamentos. Daí a importância de procurar clarificar conceitos e posições, por muito que nunca se consiga atingir a perfeição a esse respeito. É que apenas percebendo o que está a ser dito e porquê será possível fazer uma escolha informada. E as escolhas informadas dos cidadãos são a fonte de legitimidade por excelência em democracia.

sábado, 10 de março de 2012

A importância da Filosofia

A Filosofia estuda o conhecimento, a verdade, a existência a um nível fundamental, e as respostas que damos a perguntas filosóficas têm um impacto profundo na nossa vida, mesmo a nível prático. As posições que vamos tomando sobre questões concretas têm subjacente um posicionamento, mesmo que implícito e inconsciente, em relação a questões filosóficas fundamentais.

O que acontece muitas vezes é que, sendo implícitas e inconscientes, as pessoas não se apercebem das implicações a essa nível das posições que tomam. Mas as consequências estão lá. Podem é não ter sido examinadas criticamente pela própria pessoa, que aliás as poderá considerar puro e simples «senso comum», não conhecendo até outras posições alternativas.

A Filosofia, dado que mexe com os pilares daquilo em que acreditamos e daquilo que pensamos, tem consequências profundas quer a nível individual, quer a nível colectivo (na medida em que os indivíduos se inserem numa comunidade). Pensar sobre Filosofia e aprendê-la, por muito esotérico que possa parecer o tema, tem implicações práticas relevantes, ajudando as pessoas a sistematizar e tornar congruente o seu pensamento sobre o que as rodeia.

Todos temos uma ideologia. E no cerne dessa ideologia estão as nossas respostas às perguntas filosóficas fundamentais. Não é indiferente pensar que a existência precede a essência ou o contrário, considerar que o sentido da vida é uma coisa ou é outra, ser céptico ou ser idealista. Vamos defender coisas diferentes, pensar coisas diferentes, até pensar de forma diferente - e agir em conformidade, o que tem impacto quer relativamente a nós, quer relativamente aos outros.

Parte do nosso debate público é um debate filosófico, nos quais os próprios pilares de como encarar a nossa existência se encontram em jogo. Esse confronto pode estar sempre implícito. Mas está sempre lá.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Ideologia e Constituição

Uma ideologia é um conjunto de ideias sobre como deve ser organizada uma comunidade. Uma constituição é um conjunto de normas que regula a organização de uma comunidade. Pelo que, a meu ver, uma constituição pressupõe opções ideológicas, dado que, apesar da sua natureza jurídica, tem uma componente política inerente.

A nossa constituição não é excepção. O simples facto de ser uma constituição escrita resulta de uma escolha política. O facto de prever um Estado de Direito, de ser republicana, de ser democrática, tudo isto são escolhas políticas. Como são escolhas políticas, e ideológicas, todos os artigos relativos à organização económica.

Já aqui disse que todos temos ideologia. Reitero essa posição. E acrescento que o corolário é que o facto de incluir um limite ao défice e à dívida na constituição ser uma escolha política e ter subjacente uma componente ideológica não é argumento nem a favor nem contra a inclusão. Porque todas as normas constantes da constituição resultam de escolhas do mesmo género.

Continuo a pensar que o ataque às ideologias é perigoso e que quem se apresenta como neutral num contexto político está pura e simplesmente a esconder, ou não se apercebe, das opções ideológicas por trás daquilo que defende. Um debate esclarecedor sobre os temas não nega as ideologias, antes torna claras quais é que elas são, quais os seus pressupostos, de forma a que esteja tudo em pratos limpos.

Devo confessar também que acho particularmente absurdo que alguma Esquerda use a bandeira da «opção ideológica» para dizer que não se pode pôr um limite de défice e de dívida na constituição. É que não vejo a Esquerda erguer-se e dizer que a promoção de minifúndios é uma opção ideológica que não deve estar na constituição. Imagino porquê.

É preciso que os debates constitucionais em Portugal deixem de apresentar um lado como isento e neutral e o outro como cheio de preconceitos ideológicos. Todos os lados da discussão têm uma ideologia subjacente às suas propostas e isso não tem nada de mal. É parte de viver em democracia ter debates ideológicos. O pensamento único, esse, é para outros tipos de regimes.

sábado, 29 de outubro de 2011

Todos temos ideologia

Todos temos ideias sobre como a comunidade se deve organizar politicamente, sobre como deve ser distribuída a riqueza, sobre o que é a justiça. Todos temos preferências sobre estes temas que influenciam as nossas escolhas e que são a tradução de diferentes formas de avaliar a realidade que nos rodeia.

Há uma mediação entre o «ser» e o «deve ser». Essa intermediação vem da nossa avaliação e interpretação da realidade. Em suma, das nossas opiniões. E as opiniões são, por natureza, subjectivas, mesmo que fundamentadas com dados empíricos. As diferenças de opinião resultam em debates que têm por pano de fundo tentar convencer os outros de que a nossa avaliação da realidade e sobre o «dever ser» é melhor.

Desconfie de quem lhe disser que não tem ideologia, de quem lhe disser que tem opiniões «objectivas» e «factuais». No limite, opiniões «correctas». Estas não existem, muito menos em política. Podemos discutir quais os resultados das políticas do Governo, mas atacá-las por serem «ideológicas» é um ataque trivial. É que as alternativas às políticas do Governo têm também subjacente uma ideologia.

Os ataques à «ideologia» têm como resultado que os actores políticos vão ser incentivados a tentar obscurecer as suas opções ideológicas. As opções políticas vão ser apresentadas, por todos os lados, não como a melhor alternativa, mas como a única alternativa. E essa apresentação tenderá a ser feita, ainda por cima, no formato de «slogans» triviais sem qualquer substância.

Em vez de se aceitar o pluralismo ideológico e promover o diálogo entre diferentes concepções do mundo, acaba a promover-se, na melhor das hipóteses, gritarias entre actores políticos que arrogam para si a Verdade e a objectividade, obscurecendo as opções ideológicas subjacentes às suas escolhas. Na pior das hipóteses, a negação de validade a opções ideológicas contrárias tem tendência para resvalar para regimes de pensamento único.

Numa sociedade livre, aberta e plural, é importante aceitar que todos temos ideologia, e que essas ideologias influenciam e condicionam as nossas opções políticas, quer exerçamos cargos públicos quer apenas escolhamos exercer, ou não, o nosso direito de voto. Essa aceitação é fundamental para que haja um defesa clara da liberdade de expressão e de opinião, sendo ainda muito importante para promover a emergência de acordos políticos.

É urgente que combater o apelo populista do discurso que se diz «a-ideológico». É urgente preservar o pluralismo e a liberdade de pensamento, e promover o debate político substantivo.