Os argumentos de autoridade não são argumentos. A autoridade que uma pessoa tem não torna as suas posições necessariamente válidas ou correctas, nem as torna, caso seja essa a questão, mais próximas da realidade objectiva.
A aceitação acrítica da autoridade é um direito, mas a meu ver é o direito de deitar fora a nossa liberdade de pensamento - uma liberdade importante, logo para começar, no que toca à própria definição de quem nós somos e queremos ser. A aceitação acrítica da autoridade é assim uma forma de nos deixarmos definir pelo menos parcialmente por aquilo que outros dizem.
Enjeitar a nossa liberdade de pensamento tem consequências. Na prática, significa que deixamos que outras pessoas pensem por nós. Relativamente à autoridade em si, se os fundamentos dessa autoridade deixarem de ser examinados tempo suficiente, ela poderá continuar a ser respeitada, mas poderá tornar-se oca - e mais, não terá grandes incentivos a tentar melhorar.
Uma autoridade que não resista a crítica e apenas se sustente por ser autoridade significa bem pouco para mim. A autoridade que me interessa tem de ser conquistada pela força de verdadeiros argumentos, que de facto demonstrem a validade e a força de uma determinada posição. A autoridade que me interessa é aquela que resiste à crítica contra-argumentando, não apelando ao seu próprio estatuto.
A autoridade pela autoridade, essa, pode ficar para outros. E lá terá de aceitar ser criticada. Qualquer que seja o seu estatuto.
"Deve haver um dia em que a sociedade, como os indivíduos, chegue à maioridade." - Alexandre Herculano
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quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Apontamento sobre a Autoridade
domingo, 29 de janeiro de 2012
Confiança
A confiança é o motor de uma economia de mercado, de um Estado de Direito e de uma democracia saudável. A confiança é necessária para que existem trocas, para que as leis sejam respeitadas e para que o debate público seja frutuoso (ou tenha sequer lugar).
A falta de confiança tem, naturalmente, o efeito oposto. Gera medo. Gera o afastamento das pessoas. Enquanto a confiança gera uma comunidade mais coesa, mesmo que plural, o medo gera conflitos, que por sua vez geram mais medo. O frutuoso intercâmbio que nasce da confiança definha.
Tendo medo, procura-se algo que lhe ponha cobro. Um protector, alguém que prometa acabar com toda a incerteza. Alguém que explique as coisas de forma simples e apresente soluções aparentemente de senso comum para problemas que outros tratam de forma incompreensível (ver também aqui).
A erosão da confiança e o triunfo do medo são causa de estagnação, de declínio, de isolamento e terreno fértil para o surgimento de movimentos anti-democráticos autoritários. O medo torna a individualidade, assente na liberdade, algo de aparentemente trivial, e de fácil sacrifício em nome da segurança aparentemente conferida por um colectivo mais homogéneo.
Restaurar a confiança das pessoas é fundamental para garantir que todas as liberdades que conquistámos, que todas as garantias que conquistámos, sejam mantidas. É importante para que a economia funcione, mas também para que a democracia funcione. Porque a confiança é a base de uma comunidade livre.
A falta de confiança tem, naturalmente, o efeito oposto. Gera medo. Gera o afastamento das pessoas. Enquanto a confiança gera uma comunidade mais coesa, mesmo que plural, o medo gera conflitos, que por sua vez geram mais medo. O frutuoso intercâmbio que nasce da confiança definha.
Tendo medo, procura-se algo que lhe ponha cobro. Um protector, alguém que prometa acabar com toda a incerteza. Alguém que explique as coisas de forma simples e apresente soluções aparentemente de senso comum para problemas que outros tratam de forma incompreensível (ver também aqui).
A erosão da confiança e o triunfo do medo são causa de estagnação, de declínio, de isolamento e terreno fértil para o surgimento de movimentos anti-democráticos autoritários. O medo torna a individualidade, assente na liberdade, algo de aparentemente trivial, e de fácil sacrifício em nome da segurança aparentemente conferida por um colectivo mais homogéneo.
Restaurar a confiança das pessoas é fundamental para garantir que todas as liberdades que conquistámos, que todas as garantias que conquistámos, sejam mantidas. É importante para que a economia funcione, mas também para que a democracia funcione. Porque a confiança é a base de uma comunidade livre.
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segunda-feira, 25 de julho de 2011
Argumentar contra Ideias Feitas
Argumentar contra ideias feitas não é fácil. Não porque este seja mais ou menos difícil de desmontar, mas porque o interlocutor terá menos predisposição a aceitar argumentação contrária à ideia feita que pretende defender. A argumentação em sentido contrário será interpretada sistematicamente tendo por base a ideia feita que pretende rebater, embatendo numa muralha de preconceitos difícil de deitar abaixo.
Primeiro, discute-se a ideia feita com base na argumentação que a sustentaria. Esta argumentação poderá cair pela base, ou poderá não ter em conta uma série de factores relevantes. Mas apontar essas falhas não será suficiente. No momento em que se encontre uma contradição, ou se esgote, de alguma forma, a linha argumentativa em prol da ideia feita, entram em cena novas tácticas.
Uma táctica conhecida é o apelo à autoridade. O apelo à autoridade não é um argumento válido, mas o culto da autoridade leva a que seja usado como tal. Este apelo pode ser usado para pura e simplesmente legitimar a ideia ("O Prof. X defende isto, pelo que isto está certo!"), ou então para dizer que uma qualquer falha apontada à ideia não é relevante ("O Prof. X defende isto, sabe disto, e já deve ter tido essa questão em conta!").
Aparecer na comunicação social como "perito" é quase suficiente para se ser uma autoridade. Aliás, aparecer na comunicação social por si só começa a ser o suficiente para se ser uma autoridade. E mais: ser célebre é suficiente para se ser chamado a falar de todos os temas e mais alguns, independentemente do nível de estudo e de conhecimento específico sobre os mesmos. Basta pensar na recente entrevista de José Mourinho.
Outra táctica utilizada quando se esgotam os argumentos é o ataque pessoal, que vai do puro insulto ao ataque às motivações da pessoa que argumenta contra a ideia feita. Essas motivações serão sempre sinistras e egoístas. Ou então, a pessoa é burra, idiota e imbecil porque a ideia feita é de "senso comum". E como é de "senso comum", basta. Toda e qualquer falha apontada é uma tentativa de "impor" a opinião contrária à da ideia feita. E a pessoa que aponta a falha é "arrogante".
Finalmente, outra forma da lidar com falhas na argumentação que sustenta a ideia feita é mudar de assunto. Não necessariamente de propósito. Sendo confrontado com uma falha, a pessoa poderá falar de um tema conexo que também a preocupa, sem no entanto responder à argumentação contrária. Isto tende mais a mostrar a desestruturação do pensamento da pessoa que muda de assunto do que legitimar a ideia feita que se pretende defender.
Argumentar contra ideias feitas é difícil. E ter opiniões diferentes da norma e defendê-las não é bem aceite numa sociedade em que a individualidade é mal vista. "Chico-esperto" que tem "a mania", "arrogante" que "acha que sabe tudo" e "acha que é mais que os outros", entre outros epítetos, é o que espera quem o tente fazer. Mas todas as ideias devem ser examinadas e todas as ideias devem ser debatidas numa sociedade livre, e é esse debate que leva a que, de vez em quando, consigamos mesmo melhorar.
Argumentar contra ideias feitas pode ser difícil. Mas é necessário. E, felizmente, há gente que o faz.
Primeiro, discute-se a ideia feita com base na argumentação que a sustentaria. Esta argumentação poderá cair pela base, ou poderá não ter em conta uma série de factores relevantes. Mas apontar essas falhas não será suficiente. No momento em que se encontre uma contradição, ou se esgote, de alguma forma, a linha argumentativa em prol da ideia feita, entram em cena novas tácticas.
Uma táctica conhecida é o apelo à autoridade. O apelo à autoridade não é um argumento válido, mas o culto da autoridade leva a que seja usado como tal. Este apelo pode ser usado para pura e simplesmente legitimar a ideia ("O Prof. X defende isto, pelo que isto está certo!"), ou então para dizer que uma qualquer falha apontada à ideia não é relevante ("O Prof. X defende isto, sabe disto, e já deve ter tido essa questão em conta!").
Aparecer na comunicação social como "perito" é quase suficiente para se ser uma autoridade. Aliás, aparecer na comunicação social por si só começa a ser o suficiente para se ser uma autoridade. E mais: ser célebre é suficiente para se ser chamado a falar de todos os temas e mais alguns, independentemente do nível de estudo e de conhecimento específico sobre os mesmos. Basta pensar na recente entrevista de José Mourinho.
Outra táctica utilizada quando se esgotam os argumentos é o ataque pessoal, que vai do puro insulto ao ataque às motivações da pessoa que argumenta contra a ideia feita. Essas motivações serão sempre sinistras e egoístas. Ou então, a pessoa é burra, idiota e imbecil porque a ideia feita é de "senso comum". E como é de "senso comum", basta. Toda e qualquer falha apontada é uma tentativa de "impor" a opinião contrária à da ideia feita. E a pessoa que aponta a falha é "arrogante".
Finalmente, outra forma da lidar com falhas na argumentação que sustenta a ideia feita é mudar de assunto. Não necessariamente de propósito. Sendo confrontado com uma falha, a pessoa poderá falar de um tema conexo que também a preocupa, sem no entanto responder à argumentação contrária. Isto tende mais a mostrar a desestruturação do pensamento da pessoa que muda de assunto do que legitimar a ideia feita que se pretende defender.
Argumentar contra ideias feitas é difícil. E ter opiniões diferentes da norma e defendê-las não é bem aceite numa sociedade em que a individualidade é mal vista. "Chico-esperto" que tem "a mania", "arrogante" que "acha que sabe tudo" e "acha que é mais que os outros", entre outros epítetos, é o que espera quem o tente fazer. Mas todas as ideias devem ser examinadas e todas as ideias devem ser debatidas numa sociedade livre, e é esse debate que leva a que, de vez em quando, consigamos mesmo melhorar.
Argumentar contra ideias feitas pode ser difícil. Mas é necessário. E, felizmente, há gente que o faz.
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