Mostrar mensagens com a etiqueta demagogia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta demagogia. Mostrar todas as mensagens

domingo, 30 de dezembro de 2012

Fechaduras Portuguesas


Em Portugal muitos jornalistas são como chaves e a maioria do público como fechaduras.

O jornalismo em Portugal é cada vez mais feito para provocar sensações procuradas por quem o consome. Pouco interessa o rigor da informação que é partilhada ou até mesmo a sua veracidade, basta que esteja lá aquilo que quem consome o jornalismo quer ler/ouvir/ver.
Neste momento o que a grande maioria quer ouvir/ver/ler são erros cometidos por governantes ou “provas” de que ambos, ricos e governantes, vivem diariamente com o intuito de tramar a vida a todos os outros e recorrendo sempre que possível à corrupção. Isto e ou a existência de soluções muito fáceis para acabar com a crise mas que, por governantes e ricos não quererem, não são postas em prática.
Esta é a forma da chave que entra na fechadura que mantém a mente dos portugueses trancada. Essa forma tem curvas sensacionalistas e demagogas. E o mais grave é que esta fechadura está cada vez mais a ser também utilizada pelos jornalistas, desde logo no desempenhar das suas funções.
Uma visão rigorosa de determinada realidade torna mais fácil a sua transformação e o que me deixa realmente preocupado é ver pessoas, que não possuem esta fechadura demagoga, não terem vontade ou força para transformar a realidade de forma a torná-la melhor.

sábado, 7 de abril de 2012

Como criar um caso mediático

Alguém diz qualquer coisa.

Essa coisa é tirada do contexto e colocada em títulos de jornais de forma distorcida.

Opositores de quem disse a dita coisa são convidados a comentar e distorcem eles próprios o que foi dito, possivelmente até de forma diferente à dos títulos dos jornais.

Alguém aliado de quem disse a coisa tirada do contexto vem dizer qualquer coisa que pensa que a população em geral quer ouvir.

Opositores insistem na distorção.

Analistas debatem afincadamente interpretações várias das afirmações originais, mesmo que não as tenham lido ou ouvido, e sem necessariamente falarem do contexto.

Ao fim de uns dias, poucos, o interesse esmorece e passamos ao caso mediático seguinte.

Isto significa que todos os casos mediáticos são desprovidos de interesse? Não. Mas mesmo esses tendem a ser empolados e as descaracterizações tendem a acontecer aí também. Tudo fica pela rama e pouco ou nada de concreto se fica a saber sobre o que se passou.

Vamos criando casos mediáticos em vez de termos debates sérios sobre coisas sérias. O que ganhamos com isto? Nada. Mas há quem pense que é assim que se vendem jornais e que é assim que se faz verdadeira e boa política.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Confiança

A confiança é o motor de uma economia de mercado, de um Estado de Direito e de uma democracia saudável. A confiança é necessária para que existem trocas, para que as leis sejam respeitadas e para que o debate público seja frutuoso (ou tenha sequer lugar).

A falta de confiança tem, naturalmente, o efeito oposto. Gera medo. Gera o afastamento das pessoas. Enquanto a confiança gera uma comunidade mais coesa, mesmo que plural, o medo gera conflitos, que por sua vez geram mais medo. O frutuoso intercâmbio que nasce da confiança definha.

Tendo medo, procura-se algo que lhe ponha cobro. Um protector, alguém que prometa acabar com toda a incerteza. Alguém que explique as coisas de forma simples e apresente soluções aparentemente de senso comum para problemas que outros tratam de forma incompreensível (ver também aqui).

A erosão da confiança e o triunfo do medo são causa de estagnação, de declínio, de isolamento e terreno fértil para o surgimento de movimentos anti-democráticos autoritários. O medo torna a individualidade, assente na liberdade, algo de aparentemente trivial, e de fácil sacrifício em nome da segurança aparentemente conferida por um colectivo mais homogéneo.

Restaurar a confiança das pessoas é fundamental para garantir que todas as liberdades que conquistámos, que todas as garantias que conquistámos, sejam mantidas. É importante para que a economia funcione, mas também para que a democracia funcione. Porque a confiança é a base de uma comunidade livre.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Simplismo, Complexidade e Populismo

Lidar com a complexidade não é fácil. Não é fácil sentirmos que não controlamos o que nos rodeia ou que nem sequer o conseguimos entender completamente. Temos também tendência a desconfiar daquilo que é diferente e a ter medo do desconhecido. Finalmente, temos tendência para procurar padrões de forma a estruturar a realidade num todo coerente e cognoscível.

As mensagens populistas reduzem a realidade a um conjunto de proposições muito simples, fáceis de «vender» e de «captar». Jogam geralmente com o medo que as pessoas têm daquilo que é diferente e daquilo que não conhecem, envolvendo-se muitas vezes em afirmações triviais (ver aqui e aqui), chavões que ninguém questiona e que não precisam de ter grande substância. Depois, apresenta soluções também elas de simples apreensão e que fazem apelo ao «senso comum» (ver aqui e aqui) e à emoção.

Num momento de crise, as mensagens populistas apontam culpados e dizem que castigando esses culpados tudo se resolve. Prometem que, aplicando uma receita muito simples, podemos voltar a ter controlo das nossas vidas, que nos foi retirado, sem culpa nossa, por decisões que não podíamos controlar mas deveríamos poder. Prometem que, aplicando as suas ideias, podemos deixar de ter medo e de nos sentirmos inseguros, porque os problemas que nos dizem serem complexos são, na verdade, extremamente simples e simples de resolver.

Este tipo de mensagem é extremamente apelativo mesmo fora de tempos de crise, mas durante as crises torna-se particularmente sedutor. É difícil combater esta mensagem de forma eficaz sem cair em demagogias ou populismos próprios. A simplicidade atrai enquanto a complexidade afasta, dado que ninguém gosta de sentir que não é inteligente o suficiente para perceber o que lhe está a ser dito. Além disso, uma mensagem complexa que causa problemas de compreensão gera desconfiança, enquanto uma mensagem que se entende terá o efeito inverso.

Dizer que a realidade das relações humanas é uma realidade extremamente complexa e que não existem varinhas mágicas para resolver problemas, com a agravante de que todas as soluções propostas têm, elas próprias, custos não é uma mensagem apelativa. Tentar explicar conceitos complexos de forma simples mas, apesar de tudo, exacta é tarefa muito difícil, especialmente quando se luta por exposição mediática com um bombardeamento constante de mensagens demagógicas, simplistas e populistas.

Um bom debate público em democracia é fundamental para o seu bom funcionamento. Mas um debate público numa democracia liberal terá sempre uma componente populista, demagógica e simplista. Essa componente simplista aliada a elementos extremistas e anti-democráticos numa altura em que o centro não consegue arranjar soluções (e, frequentemente, se degladia com mensagens populistas próprias) mina a própria democracia.

A forma de combater este fenómeno parece-me ser conseguir que os elementos moderados em democracia (que, enfatizo, vão para além dos partidos políticos), sejam capazes de debater de forma substantiva e tenham, de facto, propostas para resolver problemas, não propostas para ganhar jogos de política pura. Isto tem sido, no entanto, aquilo a que sistematicamente temos vindo a assistir.