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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Entrevista a André Escórcio Soares

André Escórcio Soares, ainda na lista de autores deste blogue, mas com uma intervenção muito pouco regular, teve a simpatia de aceitar responder a umas perguntas sobre a Psicologia, a Psicologia Social, a Psicologia Positiva e, finalmente, sobre a «Pegada Positiva», um interessante projecto que tem dinamizado com mais gente, e que até programa de rádio já tem, na Rádio Hertz, em Tomar. 

Sem mais demoras, passemos à entrevista... 

André, tu és psicólogo social. De onde surgiu o interesse pela psicologia, e porquê a psicologia social?

Bom dia, antes de mais obrigado pelo convite para esta entrevista, tenho um enorme prazer em conversar contigo sobre estes temas. Seria muito romântico dizer que sempre quis ser psicólogo, que era um sonho de criança, no entanto este meu interesse (consciente) por esta área só despertou no final do secundário. Durante todo o ensino secundário estive mais ligado à área de desporto, no entanto no último ano começou a fascinar-me a psicologia. Não sei ao certo de onde surgiu esse interessa, na altura simplesmente imaginava-me num consultório a dar consultas de psicologia clínica.

É engraçado que quando entrei na Licenciatura afirmava com toda a convicção que queria ser psicólogo clínico. No entanto, no terceiro ano comecei a mudar a minha opinião. No final desse ano teria que escolher uma área, e comecei a interessar-me pela psicologia organizacional, começou a fascinar-me o trabalho do psicólogo nas empresas, pelo que segui para  a área de Psicologia Social e das Organizações.

Qual a tua experiência até este momento na área da Psicologia Social?

Nos últimos anos, a maioria do meu trabalho tem sido maioritariamente desenvolvido mais na área da Psicologia Organizacional do que em Psicologia Social (pelo menos na sua concepção mais tradicional). Sou professor de ensino superior, dando aulas em áreas como a Gestão de Recursos Humanos, Liderança, Gestão de Equipas, Gestão de Conflitos, Comportamento Organizacional e Metodologias de Formação, entre outras. Faço ainda investigação, sendo que nos últimos tempos me tenho debruçado sobre a análise de redes sociais e a segurança psicológica. Em Psicologia já trabalhei na área da Psicologia do Ambiente, Qualidade de Vida e Desenvolvimento Regional e Formação. Outra área que também me tem interessado é a Psicologia Positiva.

Já agora, para quem esteja a ler e possa não saber, podes explicar sucintamente o que é a Psicologia Social?

A Psicologia Social, de uma forma muito resumida, pretende estudar o comportamento do indivíduo em contexto social. Pretende por isso estudar a relação entre indivíduos, a relação entre os indivíduos e os grupos e a relação entre grupos. De qualquer forma, para mim cada vez é mais complicado estabelecer as fronteiras entre as diferentes “psicologias”. Hoje em dia temos uma híper especialização sendo que isso se reflecte também na psicologia, temos por exemplo a psicologia económica, psicologia do ambiente, psicologia aeronáutica, etc. Eu prefiro dizer que sou psicólogo em vez de dizer que sou psicólogo social, apesar de existirem áreas em que não estou claramente à vontade como por exemplo na área da psicologia clínica.

Dentro da Psicologia, sei que interessas pelo estudo da Felicidade. Porquê?

Durante décadas a preocupação do ser humano foi em atenuar a dor, quer ela seja física ou psicológica. Na medicina, os médicos tentam eliminar ou controlar as doenças, na psicologia tentava-se diminuir o sofrimento psicológico. No entanto, a ausência de dor não é necessariamente a presença de bem-estar, ou seja, as pessoas ambicionam bem mais do que estarem bem de saúde, as pessoas ambicionam ser felizes. Neste sentido, na última década existem cada vez mais investigadores e profissionais a dedicarem-se ao estudo da psicologia positiva e felicidade. Acredito que a evolução da humanidade passará necessariamente por aqui e é para mim uma honra fazer parte disso.

É possível dar uma definição objectiva à Felicidade?

Essa é uma pergunta bastante pertinente. Normalmente as principais críticas à psicologia positiva e estudos da felicidade prendem-se com o facto do conceito de Felicidade depender de pessoa para pessoa. Afirmam esses críticos que os investigadores desta área tentam impor um conceito de felicidade, o que não faz sentido de todo. Qualquer investigador reconhece que a felicidade é definida de forma puramente idiossincrática e que aquilo que faz feliz uma pessoa não faz necessariamente outra. No entanto, o que os estudos nestas áreas nos têm mostrado é que existem algumas características que as pessoas que reportam maiores níveis de felicidade partilham. Por exemplo, as relações pessoais têm-se mostrado extremamente importantes para as pessoas que se manifestam como mais felizes. Por outro lado existem aspectos comuns a todos os seres humanos, por exemplo ninguém é feliz se passar fome, tal como ninguém é feliz se não tiver um ambiente que lhe ofereça alguma segurança.

Tu consideras-te um Liberal. O que é para ti o Liberalismo?

Na verdade não sou eu que me considero liberal, são alguns dos meus valores que são atribuídos muitas vezes aos liberais. Por outro lado, apesar de poder ser considerado liberal, sou também um grande crítico do liberalismo. Por exemplo, os liberais ainda estão muito agarrados a conceitos económicos tradicionais como por exemplo o PIB. No entanto, já percebemos que estas medidas meramente económicas são claramente insuficientes para avaliar o bem-estar e saúde das nações. No futuro, vejo o liberalismo ligado à psicologia positiva e estudos da felicidade. O papel do estado deve ser o garantir um contexto ideal para que os indivíduos possam procurar a sua felicidade. Deve ter por isso a preocupação de que toda a gente tem alimentação, saúde, educação e segurança, mas não deve impor estilos de vida. Neste sentido, hoje sou Liberal, mas amanhã logo se vê, vai depender da evolução do liberalismo.

Em que medida é que dar uma definição objectiva à Felicidade não pode criar tensões com a noção liberal da liberdade individual, na medida em que, tendo uma noção que se apresenta como objectiva de Felicidade, nos sintamos tentados a tentar dizer às pessoas como devem ser felizes?

Como disse anteriormente, nenhum investigador ou profissional ligado à Psicologia Positiva e Estudos da Felicidade defende uma “receita” para a Felicidade. Apesar de existirem componentes que contribuem de uma forma geral para a Felicidade (ex. fazer o bem aos outros, relações interpessoais, etc.), cada pessoa realiza-se de forma diferente. Desta forma, o liberalismo pode dar um contributo fundamental, ao defender a liberdade dos indivíduos em procurar a sua felicidade.

O que é a Psicologia Positiva e como se relaciona com o estudo da Felicidade?

A Psicologia Positiva surgiu com Martin Seligman. Este psicólogo Americano foi presidente da APA (American Pscyhology Association) no início do séc XXI. Na altura a Psicologia preocupava-se essencialmente com a componente negativa do ser humano, os comportamentos disfuncionais, a doença, etc. Seligman, apresentou como desígnio da sua presidência o foco na componente positiva dos seres humanos. Neste sentido, a PP incide sobre as forças das pessoas e não as fraquezas. Surgiram estudos relacionados com esperança, optimismo, paixão, riso, e, claro Felicidade e bem-estar. A Felicidade é uma dos conceitos estudados pela psicologia positiva, é de certa forma aquele que acaba por abranger todos os outros. Eu prefiro o termo Estudos Positivos ou Estudos da Felicidade para designar esta área de investigação e intervenção, há muito que estes temas transbordaram da Psicologia inundando outras áreas, como por exemplo a Economia.

Quais as principais preocupações da Psicologia Positiva e quais as suas principais conclusões?

A Psicologia Positiva é em primeira mão uma área científica dentro da Psicologia, como tal o seu papel prende-se com o desenvolvimento do conhecimento acerca do lado positivo do ser Humano. Em termos práticos, a ideia é desenvolver uma intervenção nas mais diversas áreas desde a Economia até à Ciência Política ou Saúde, que permita melhorar a Felicidade e Bem Estar de indivíduos e comunidades, permitindo também que os indivíduos se realizem. 

Após este enquadramento, penso que já podemos falar concretamente da Pegada Positiva. De onde surgiu a ideia de formar uma ONGD (Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento)? 

A Pegada Positiva - Educação e Cooperação para o Desenvolvimento, é uma associação, que surgiu da detecção de uma área pouco explorada e que se prende com a intercepção entre a psicologia positiva e estudos da felicidade e a educação e cooperação para o desenvolvimento.

Neste sentido, e tendo por base os princípios da Psicologia Positiva, a nossa missão é contribuir para o desenvolvimento de pessoas felizes que contagiem o mundo e impulsionem a mudança social, através do seu envolvimento em projectos de voluntariado inovadores de desenvolvimento local, regional e nacional, em Portugal e no Mundo. 

Para tal, a nossa actuação passa, por um lado formar e desenvolver voluntários e cidadãos mais conscientes, e por outro pelo desenvolvimento de projectos de desenvolvimento em Portugal e em países de baixa renda, tendo por base a Psicologia Positiva e estudos da Felicidade.

O nosso principal projecto, "Trilho", consiste na formação de jovens voluntários (entre os 18 e os 35 anos) ao longo de cerca de 8 meses e que culmina na realização de uma missão num país de baixa renda (neste momento estamos a efectuar contacto com países Africanos).

É ainda de referir que ainda não obtivemos o estatuto de ONGD mas que contamos em fazê-lo brevemente.
           
Na Pegada Positiva, falam da importância do Compromisso, do Optimismo, da Aceitação, da Criatividade, da Inovação e da Equipa. Queres explicar o que isto significa?

Esses são os valores da Pegada Positiva. Os nossos valores são bastante importantes para nós uma vez que são eles que nos guiam no nosso dia a dia. Por vezes, por estarmos perante trabalho voluntário parte-se do principio que não se pode pedir às pessoas que se dediquem, que devem participar quando lhes apetece. Nós rejeitamos essa visão, para nós ingressar numa organização que funciona com trabalho voluntário é um compromisso importante, existem pessoas e comunidades que estão a contar com o nosso trabalho e que dependem dele.

Por outro lado, acreditamos que através da nossa actuação é possível contribuirmos para um mundo melhor, é nesse sentido que o optimismo é tão importante para nós.

Ao nível da Inovação e Criatividade, julgamos que são extremamente importantes para dar resposta aos desafios que se vão colocando. Hoje já se fala muito em inovação social, e para nós é claro que temos de ter abordagens inovadoras e criativas aos desafios com que nos vamos deparando.

Um outro aspecto fundamental para nós é a aceitação. Este valor é especialmente importante na nossa actuação com as comunidades de outros países (e até do nosso). Temos de compreender muito bem as necessidades dessas comunidades e aceitar os seus modos de vida. Por exemplo, se eu estiver numa missão em Angola, devo compreender e aceitar o facto de as mulheres casarem (em média) mais cedo e terem também mais filhos do que em Portugal.

Por fim, mas não menos importante, cultivamos um espírito de amizade e equipa dentro da Pegada Positiva, é fundamental estarmos todos orientados para os mesmos objectivos e nos articularmos para os alcançar. A equipa vai servir de base não só à actuação dos nossos voluntários como também ao seu desenvolvimento pessoal.

Que projectos tem a Pegada Positiva já a decorrer?

Neste momento estamos na fase de lançamento daquele que será o nosso projecto principal, o Trilho. O Trilho é um projecto de desenvolvimento pessoal e de voluntariado, que culminará numa missão internacional de curta duração (cerca de 1 mês) num país Africano.

Temos também já a decorrer um projecto de voluntariado no Projecto Tomar o Rumo Certo, que é um projecto financiado pelo Programa Escolhas e promovido pelo CIRE que é uma instituição de Tomar. Este projecto incide, sobretudo, no trabalho com crianças e jovens em risco de exclusão social, com especial enfoque no trabalho com minorias étnicas.

Temos ainda um programa quinzenal na Rádio Hertz, o Happy Hour, em que normalmente conversamos com convidados sobre temas relacionados com Felicidade, Bem Estar, Desenvolvimento, etc. Este programa é transmitido via FM para a região de Tomar e para todo o mundo via internet.

Como se financia a Pegada Positiva?

O nosso principal financiamento actual resulta de donativos, realização de eventos de angariação de fundos, venda de materiais e do nosso programa Amigo Positivo através do qual as pessoas se podem inscrever e contribuir com o mínimo de 25€/ano ficando assim ligados à Pegada Positiva. 

Finalmente, que tal tem sido a experiência até agora?

Fantástica!!!

Agradeço ao André a disponibilidade para responder às minhas perguntas. Para quem esteja interessado em saber mais sobre a Pegada Positiva, pode encontrar mais informação na página Facebook da organização (aqui).

domingo, 12 de agosto de 2012

Entrevista a Luís Humberto Teixeira - Índice

O Luís Humberto Teixeira, de quem já aqui falei, é um dos responsáveis pela proposta de revisão do sistema eleitoral apresentada pelo PAN. O tema da reforma eleitoral preocupa-me e pensei que seria interessante enviar ao Luís um conjunto de questões que considerei relevantes sobre a proposta agora apresentada e publicá-las aqui no blogue. O Luís simpaticamente aceitou responder, e aqui está o resultado final, cuja leitura, naturalmente, sugiro! Na última parte, o leitor encontrará informação sobre como procurar mais informação sobre a proposta e como colaborar, no caso de ter interesse em fazê-lo.

 Agradeço desde já ao Luís a simpatia de responder às minhas perguntas.





Entrevista a Luís Humberto Teixeira - Parte 5

(Ir para a Parte 4.)

21. A tua proposta foi apresentada sob a forma de petição à Assembleia da República. Porquê este formato? O que têm feito para promover a proposta?

A nossa proposta foi apresentada sob a forma de petição porque, tendo em conta a alteração pretendida, era o melhor formato para angariar assinaturas e mostrar que havia quem defendesse esta mudança.
Além de ter sido promovida uma conferência de imprensa para apresentação da proposta, foi criado um conjunto de páginas sobre o tema no site do PAN e fez-se divulgação via e-mail e via Facebook. Estamos agora a estudar a realização de eventuais sessões de esclarecimento acerca da iniciativa junto de grupos de cidadãos que estejam interessados em saber mais, e iremos solicitar audiências aos grupos parlamentares, para tentar sensibilizá-los para esta proposta.

Se algum partido com representação parlamentar quiser adoptar a proposta, nem eu nem o PAN colocaremos qualquer obstáculo. O que importa é mudar a lei para melhor.

22. Caso se chegasse à conclusão que a proposta apenas seria aceite com alterações - p.ex. caso se chegasse à conclusão que existiria a possibilidade de se alterar o sistema eleitoral português para um sistema misto, na linha do que tu propuseste em 2003 - em que medida estarias disposto a aceitar um compromisso nesse sentido e apoiar essa solução de compromisso?

Apenas conseguirei opinar perante alterações concretas que sejam sugeridas, mas, como a política é a arte do compromisso, qualquer proposta que melhorasse a lei actual seria preferível a manter tudo como está.

23. Falando de outra alternativa possível, tratemos do voto único transferível. Quais as vantagens e desvantagens que vês neste sistema?

O voto único transferível tem a vantagem de dar ao eleitor a possibilidade de uma escolha mais elaborada dos eleitos. Porém, é um sistema algo complexo para quem se habituou a votar em listas fechadas de partidos. Além disso, ele comporta o risco de favorecer a eleição de candidatos altamente mediáticos, em detrimento de outros que poderiam ser mais competentes mas que primam pela discrição.

24. Consideraste algum sistema diferente antes de apresentares o sistema com círculo nacional e círculo de imigração que agora é proposto na petição? Se sim, qual, ou quais, e o que te levou a apresentar este sistema em detrimento de outros sistemas considerados?

O grupo de trabalho debateu várias hipóteses e a opção por esta proposta em detrimento de outras deveu-se ao facto de ela ser a melhor a debelar/neutralizar os problemas encontrados no sistema actual. Optou-se por dois círculos – um nacional e outro para a emigração – em lugar de um círculo único porque não fazia sentido juntar residentes em território nacional com não residentes, já que são eleitores com expectativas diferentes relativamente aos seus representantes.

25. As iniciativas legislativas do cidadão (ILC) são instrumentos que permitem a cidadãos apresentar propostas de lei ao Parlamento para a sua consideração. Um dos limites que actualmente existem às ILC é que uma ILC não pode tratar de alterações à Constituição. Concordas com este limite? O que pensas sobre as ILC?

As ILC não deviam ter os actuais limites quanto às matérias a abordar. Se elas têm, obrigatoriamente, de ser votadas pelos deputados, qual é o problema de abordarem matérias reservadas a estes? Afinal, não são os deputados quem vai decidir se a proposta é aprovada ou não? A este propósito, assinei a ILC “Democracia Participativa”, porque, embora discorde do ponto 1 – 7.500 assinaturas parece-me muito pouco –, concordo parcial ou totalmente com os três pontos restantes.

26. A hipótese de apresentar uma ILC sobre reforma do sistema eleitoral foi considerada? Se pudesses apresentar uma ILC que alterasse a CRP no que toca ao sistema eleitoral, que alterações proporias?

Foi considerada, mas abandonámos esse propósito devido a um parecer prévio da Assembleia da República, que chegou mesmo antes da apresentação pública da proposta. Na conferência de imprensa, a Inês Real, jurista do PAN, abordou o assunto em maior detalhe.

Em relação a propostas de modificação do sistema que implicassem alterações constitucionais, talvez mudasse o método matemático, optando por um mais proporcional, como o de Saint-Laguë ou o proporcional puro. Contudo, não considero que essa alteração seja prioritária – prioritária é a diminuição do número de círculos eleitorais, e isso pode facilmente ser feito com uma alteração cirúrgica à lei eleitoral.

27. Finalmente, poderá haver quem, depois de ler esta entrevista, esteja interessado em apoiar esta iniciativa, ou em saber mais. Como o poderá fazer?

Quem quiser apoiar a iniciativa pode assinar a petição em http://tinyurl.com/maispluralismo.

Quem quiser saber mais, pode visitar http://pan.com.pt/reformaeleitoral.

Se algumas dúvidas subsistirem, podem sempre enviar-me um e-mail para luis.teixeira@precidadania.org.

(Ir para Índice.)

Entrevista a Luís Humberto Teixeira - Parte 4

(Ir para a Parte 3.)

16. Escolheste manter o círculo da emigração. Consideraste a hipótese de o eliminar, pura e simplesmente? Porque afastaste esta hipótese? Consideraste também a hipótese de retirar o voto aos emigrantes? Não que eu defenda esta posição, mas uma questão que se poderia colocar é a seguinte: Porque devem os emigrantes ter o direito de voto em eleições legislativas se não vivem no país e não é cá que tendencialmente pagam impostos?

Os emigrantes têm direito de voto porque são portugueses, apenas foram procurar melhores condições de vida noutro ponto do mundo. Muitas vezes, não sabem se a sua situação é temporária ou não. Por isso, não faz sentido retirar-lhes o direito de voto por estarem ausentes do território, seja por muito ou por pouco tempo. Não é cá que tendencialmente pagam impostos? Talvez, mas muitos enviam para cá as suas poupanças. Além disso, o dinheiro não é tudo na vida. Os afectos também são muito importantes. E a maior parte dos nossos emigrantes sente afecto por Portugal. Por isso nunca defenderia a eliminação, pura e simples, da possibilidade de voto dos emigrantes.

17. Um dos argumentos que invocas para defender o sistema que propões é que aproveita melhor os votos válidos. Em 2003 já falavas deste tema, bem como do tema dos "eleitores fantasma". Sinto que são dois temas que de facto te preocupam bastante, e sinto também que influenciaram bastante a proposta que agora fazes. É assim? Que melhorias tem havido no campo da remoção de "eleitores fantasmas" dos cadernos eleitorais, reduzindo desta forma o enviesamento por eles causado?

São dois temas interligados e que me preocupam bastante, de facto. Foi por isso que elaborei vários estudos sobre eleitores-fantasma, a título individual ou em co-autoria com o José António Bourdain, meu colega de mestrado. Aliás, em breve deverá sair mais um.

Porém, antes de nós, já autores como Paulo Morais e José António Monteiro diziam, no estudo “Actualização dos cadernos eleitorais e suas consequências nos círculos de apuramento”, que a “geografia eleitoral é afectada negativamente pela existência de cadernos eleitorais desactualizados, obsoletos”.

Não se pense, porém, que tal se deve a incúria dos serviços. Pelo que sei, o trabalho desenvolvido por Jorge Miguéis e pela sua equipa na Direcção Geral da Administração Eleitoral tem sido o melhor possível. Muitíssimos “fantasmas” foram já detectados e eliminados. Outros estão em espera, a aguardar pelas inúmeras confirmações necessárias até serem, por fim, removidos do sistema.

Ou seja, tecnicamente até podemos usar as melhores soluções para lidar com o problema, mas é impossível acabar de vez com ele, pelo menos enquanto não for proibido morrer no período entre o fecho dos cadernos e o dia das eleições.

Por isso, a solução não é técnica, é política. A existência de eleitores-fantasma só é relevante porque continuamos a depender dos cadernos eleitorais para distribuir, a priori, os mandatos por vários círculos. Se sabemos que, por norma, quanto menos círculos, menor a influência dos “fantasmas”, porque não adoptar o mínimo de círculos possível – um ou dois – e fixar legalmente o número de deputados a eleger por cada círculo? Se o fizermos, os fantasmas passam a não assustar ninguém.

18. Invocas o argumento de um potencial aumento da participação eleitoral para apoiar a mudança que defendes. Em que dados te baseias para fazer esta afirmação? Estudaste os países em que este sistema existe e comparaste o seu nível de participação com o nível de participação portuguesa?

Poderia tê-lo feito, mas não o fiz porque a participação eleitoral depende de muitos outros factores (cultura cívica, oferta partidária, expectativas, etc.).

A razão pela qual invoco o argumento do potencial aumento da participação prende-se com o facto de um círculo nacional de grande dimensão incentivar o “voto sincero”. Além disso, havendo um maior aproveitamento dos votos válidos na conversão dos mesmos em mandatos, os eleitores passariam a sentir que o seu voto valia mais e talvez se sentissem menos tentados pela abstenção ou por formas de protesto politicamente ineficazes, como o voto nulo ou o voto em branco.

19. Até que ponto é que a população portuguesa está preparada para debates sobre estes temas? As pessoas conhecem o sistema político português e estão preparadas para o debater? O que fazer para melhorar essa preparação?

Estes temas são complexos, mas não demasiado, pelo que acredito que as pessoas podem facilmente compreender o que está em causa. Contudo, é preciso que partam para sessões de debate sobre o sistema eleitoral com conhecimentos mínimos sobre aquilo de que se está a falar ou, pelo menos, com abertura para aprender aquilo que não sabem ou que aprenderam de forma errada.

O que fazer para melhorar? Talvez criar disciplinas de Cidadania no ensino secundário, que expliquem de forma clara o funcionamento da democracia, ou fazer esse tipo de sensibilização/educação através de formações informais abertas a todos os interessados.

Espero que o Manual de Democracia Participativa que o PAN está a preparar também ajude a alcançar mais rapidamente o objectivo de ter cidadãos preparados para debater questões políticas de forma fundamentada.

20. Voltemos a falar das tuas ideias pessoais. Tu és liberal e ambientalista ao mesmo tempo. Há quem defenda que uma coisa exclui a outra. Que não se pode ser liberal e ao mesmo tempo ambientalista, porque o ambientalismo pressupõe demasiados princípios que estão em confronto directo com a liberdade individual, com o livre funcionamento dos mercados e até com o comércio livre. Tu não concordarás com esta visão. Como concilias, então, o teu Liberalismo com o teu Ambientalismo?

É tudo uma questão de medida. Ser livre não é sinónimo de não ter limites, bem pelo contrário. A liberdade implica responsabilidade, e o que é o ecologismo senão uma tomada de consciência de que temos de ser responsáveis para com o planeta e todos os seres que nele habitam? Isto, claro, se quisermos manter um planeta em que nos seja possível viver.

No entanto, é sempre bom estarmos conscientes de que aquilo a que chamamos o perigo de destruição do planeta não é outra coisa senão o perigo de destruição das condições necessárias para a vida humana, porque somos uma espécie extremamente autocentrada, como nos recorda o humorista anarquista George Carlin no excelente momento de stand-up “The planet is fine. The people are fucked!”.

(Ir para a Parte 5.)

Entrevista a Luís Humberto Teixeira - Parte 3

(Ir para a Parte 2.)

11. Tendo em atenção que um sistema mais proporcional favorece a entrada de pequenos partidos no Parlamento, surge habitualmente a crítica de que esses pequenos partidos apenas defendem esse tipo de reforma de modo a chegarem ao poder, e não necessariamente por qualquer noção de interesse público. Como reages a esta possível acusação?

Se nas próximas eleições o PSD ou o PS tivessem uma quebra de votação similar à que a UCD teve em Espanha em 1982 – quando passou de partido do governo, com 168 deputados (num universo de 350), a força residual da oposição, com 11 deputados – deixariam de ser vistos como grandes partidos. Já tivemos o caso do PRD, que em 1985 elegeu 45 deputados, em 1987 só tinha 7, e em 1991 nem 1% dos votos obteve.

Ou seja, o que torna um partido grande ou pequeno? O número de votos que recebe. Por isso, um pequeno partido agora pode ser um grande partido dentro de algumas décadas e vice-versa.

A esse nível, as alterações propostas na Petição pela Reforma da Lei Eleitoral têm como único efeito tornar a composição do Parlamento num reflexo mais fiel da vontade popular. Se isso favorece os partidos pequenos e médios? Sim, favorece, mas só porque são esses os maiores prejudicados pelo sistema actual, que em 2011 ignorou os votos de mais de meio milhão de eleitores, 99,4% dos quais recaíram sobre partidos médios e pequenos.

Ora, olhando para a questão do ponto de vista do eleitor, será justo que as 51 mil pessoas que, em 2011, votaram no PS em Leiria tenham eleito três deputados quando as 62 mil que votaram no MRPP em todo o país não elegeram ninguém?

12. Voltemos às tuas posições políticas pessoais e à sua influência nas tuas propostas. De que forma é que a tua proposta actual é mais ou menos consentânea com o Liberalismo que também sei que defendes? E que Liberalismo é esse? Como o definirias?

Para mim, a melhor definição de liberalismo está na contracapa do livro “A Tradição da Liberdade”, do politólogo belga Corentin de Salle: o liberalismo não é uma ideologia, é uma doutrina empírica, fundamentada, aberta e evolutiva. Ora, não sendo adepto de sistemas desligados da realidade, dogmáticos, fechados e imóveis, serei liberal.

Como tal, pertenço ao Movimento Liberal Social (MLS) e, de acordo com um teste de bússola política que fiz há uns anos, sou um dos que está mais à esquerda a nível político dentro da associação. Defino-me, por isso, como um ecologista, liberal, de esquerda, e com grande simpatia por algumas ideias libertárias.
Se esta proposta de reforma é consentânea com o liberalismo que defendo? Sem dúvida. Ela pretende resolver problemas reais de forma fundamentada, promover a abertura do sistema a novas forças, aumentar a diversidade de opiniões no Parlamento e torná-lo mais flexível.

13. Uma crítica potencialmente apontada a propostas como as que fazes agora é a seguinte: em tempos de crise económica e financeira, o país deve ter outras prioridades. Agora não seria o tempo de discutir reformas do sistema político, mas sim o tempo de discutir como combater o desemprego, promover o crescimento económico ou resolver a crise do euro. Em suma, debates institucionais seriam luxos durante tempos de crise. Devemos mesmo estar discutir a reforma do sistema eleitoral?

Sim, devemos. Crises como esta são sempre usadas como desculpa para três coisas: adiar a discussão de temas importantes, cortar na cultura e negligenciar a protecção do ambiente. Tudo isto me aborrece. Sobretudo porque o sistema eleitoral é parte da razão pela qual chegámos ao estado actual. Um sistema que promova a entrada de mais partidos no Parlamento é, tendencialmente, um sistema mais vigilante perante a má gestão da coisa pública.

Além disso, temos de aproveitar estes momentos de incerteza face ao futuro para repensar a organização da sociedade a todos os níveis, incluindo o político, até porque deste irão depender muitas decisões futuras.
Por isso, não sou adepto do discurso anti-política e anti-partidos que tanto se ouve em alturas de crise. Se as crises servem para algo é para reconciliar os cidadãos com a democracia. Se isso não acontecer, corremos o risco de regressar a tempos mais negros.

14. No "site", fala-se no corte do número de deputados que é proposto enquadrado no contexto de austeridade em que vivemos. Ou seja, é apresentado como um corte de despesa que, apesar do seu valor diminuto, se poderia considerar como simbolicamente relevante. Mas não será isto desconsiderar o valor dos deputados enquanto tal, enquanto representantes do povo na Assembleia? Este argumento não é, na verdade, apenas uma forma demagógica de apelar ao sentimento anti-política e anti-partidos?

Muita gente poderá entendê-lo dessa forma, mas isso só acontece porque esse sentimento anti-política e anti-partidos está instalado na sociedade portuguesa e, se a observação não me falha, em franco crescimento.

Além de representar uma redução simbólica da despesa, útil enquanto exemplo para a sociedade, a diminuição do número de deputados tem por objectivo compensar a governabilidade, embora esta dependa, acima de tudo, da capacidade de diálogo de cada governo. Isto porque governar não é impor, é reflectir, é negociar e é escolher a solução que se revele mais adequada para o maior número de pessoas.
Como tal, propor uma redução no número de deputados não é desconsiderar o seu valor enquanto representantes do povo na Assembleia. É até o inverso: valorizar aqueles que serão eleitos, pois terão maiores responsabilidades perante o colectivo que representam.

De certo modo, é uma aplicação da lei da oferta e da procura: quanto menos há, mais valor tem.

15. Defendes que devem existir 181 deputados, também com o argumento de que aumentaria a governabilidade, tendo em atenção as características do novo sistema, como aliás já referiste. O mínimo previsto pela CRP é de 180. Presumo que o 181 tenha sido escolhido por ser número ímpar. Mas foi só esse o critério? Se pudesses alterar a Constituição, qual seria o número de deputados que proporias, e porquê?

O facto de ser ímpar foi o critério, para evitar empates técnicos, como o de 1999, entre governo e oposição. Quanto ao número de deputados, recentemente, numa conversa com o João Vasco, do Esquerda Republicana, fui alertado para o facto de o número actual – 230 – ser aquele que está mais próximo da “linha de guia” das câmaras baixas europeias. O autor do gráfico que o João me indicou foi o Pedro Magalhães, pelo que não tenho razões para duvidar da seriedade do estudo.

Lembro-me que, em 2006, fiz uma experiência parecida, só com os países que pertenciam à União Europeia e o valor que encontrei como ideal para Portugal foi 221. Por isso, se a alteração que o nosso grupo de trabalho propôs fosse modificada no que respeita ao número de deputados, não veria grandes inconvenientes. Mas terei sempre muitas reservas em aceitar um aumento do número de círculos.

(Ir para a Parte 4.)

Entrevista a Luís Humberto Teixeira - Parte 2

(Ir para a Parte 1.)

6. Uma crítica possível ao sistema que propões é que sedimenta o poder dos partidos e diminui ainda mais a ligação entre o cidadão eleitor e os deputados que são eleitos. Assim, os deputados teriam mais incentivos para agradar às respectivas direcções partidárias do que ao eleitorado. Como respondes a esta crítica?

Não me parece uma crítica preocupante. O poder dos partidos está sedimentado há muito em Portugal e esta proposta não o aumenta. Quanto à ligação entre eleitores e eleitos, dificilmente será menor do que já é...

Todavia, é possível conciliar a proposta avançada na Petição pela Reforma da Lei Eleitoral com medidas de aproximação entre eleitos e eleitores.

Em 2006, no âmbito de um call for papers da Loja de Ideias sobre a reforma do sistema eleitoral, esbocei a seguinte ideia: após serem eleitos, os deputados deviam fazer uma declaração pública dos temas e áreas geográficas a que se sentissem mais ligados. Assim, sempre que um eleitor quisesse enviar uma denúncia ou uma sugestão ao Parlamento, seria fácil saber qual ou quais os deputados mais sensíveis ao assunto.

Esta parece-me uma solução mais eficaz para estabelecer uma aproximação entre eleitos e eleitores do que os círculos uninominais, sobretudo porque não tem quaisquer contra-indicações ou efeitos secundários negativos para o pluralismo.

7. Outra questão relevante prende-se com a governabilidade e com o poder dos pequenos partidos. Em que medida é que o sistema que propões não dá demasiado poder aos pequenos partidos, um poder que vai para além da sua efectiva representatividade entre a população do país, tendo em atenção que os maiores partidos dependerão deles para conseguirem formar maiorias e governar (veja-se o caso de Israel)? E até que ponto é que o sistema não promove, desta forma, a instabilidade governativa?

Se houvesse o objectivo de dar aos pequenos partidos um poder superior àquele que lhes é devido, não se propunha a redução do número de deputados para 181.

Como é expectável que o círculo nacional aumente o pluralismo no Parlamento, a redução no número de deputados é um contrapeso, uma compensação pela menor governabilidade que um sistema mais representativo implicará.

Isto porque há quem defenda que mais pluralismo implica sempre menos governabilidade, logo mais instabilidade, uma relação de causa-efeito com a qual não concordo inteiramente, pois a instabilidade é mais fruto da incapacidade de diálogo do que da diversidade de opiniões.

Veja-se os governos de António Guterres: o primeiro não tinha maioria e governou uma legislatura inteira na base do diálogo; o segundo só aguentou meia legislatura, apesar de o PS ter metade do Parlamento e, como tal, uma maior base de governabilidade.

Em democracia, a política deve ser a arte da negociação – e para haver negociação é importante haver pluralismo. Já a imposição da vontade de alguns, comum em governos com maioria absoluta, é um tique autoritário.

Em suma, o sistema proposto não promove, de todo, a instabilidade governativa. Promove, sim, a negociação entre diferentes forças políticas, com vista ao estabelecimento de um “common ground”, de uma base de entendimento.

8. Porquê um sistema eleitoral proporcional e não um sistema eleitoral maioritário, ou seja, um sistema que tendencialmente garantisse uma maioria parlamentar ao vencedor das eleições, de forma a que este tivesse maior facilidade em formar Governo e implementar o seu programa?

Como ecologista, sou a favor da biodiversidade, tanto no ambiente natural como no ambiente humano. Como tal, não defendo a lógica “winner-takes-all” de um sistema maioritário ou de um sistema proporcional com bónus maioritário, como o grego. Além disso, como disse antes, acredito que a política é a arte da negociação e que é do diálogo entre os vários partidos que algo melhor pode surgir.

Quando se fala em alterar a lei eleitoral autárquica para favorecer a formação de executivos monocolores, não consigo deixar de pensar em como isso será nocivo para a qualidade da democracia local. Pode até ser melhor para quem governa, mas para quem é governado...

9. De onde surge a tua colaboração com o PAN?

No Verão de 2011 entrevistei o Paulo Borges porque decidi incluir o PAN no meu livro “Verdes Anos”, que é um upgrade da tese de mestrado em Política Comparada que defendi no ICS-UL. Após a entrevista, falámos sobre sistemas eleitorais e notámos que havia um interesse mútuo em aprofundar o tema e procurar soluções para o caso português. Meses depois, ele lançou-me este desafio e eu aceitei.

10. No teu livro “Verdes Anos. História do Ecologismo em Portugal (1947-2011)”, falas da ligação entre o ecologismo e ambientalismo com um programa reformista também a nível do sistema político. De que forma é que o teu ambientalismo influenciou o sistema que propuseste em 2003 e propões agora?

Foi estruturante. Não é só a questão da biodiversidade política, que referi anteriormente, que fomenta o debate de ideias e a expressão de pontos de vista minoritários ou alternativos. É também a diminuição do desperdício, através da defesa de um sistema mais eficiente – ignorar meio milhão de votos é faltar ao respeito a muita gente.

É dar mais poder às bases, permitindo que a multiplicidade de opções existente na sociedade esteja mais bem reflectida numa Assembleia que devia ser um espelho do país.

E fazer isto mantendo aquilo que o actual sistema tem de positivo, numa lógica de reutilização ou reciclagem – é o caso da manutenção dos 4 deputados para a emigração, mas num único círculo, em vez de em dois.
De forma muitas vezes discreta, medidas deste género têm sido propostas por ecologistas ao longo do tempo: foi o José Carlos Marques nos anos 80, o Viriato Soromenho-Marques nos 90... Sinto que estou a continuar esse trabalho, fazendo algumas coisas à minha maneira, é certo, mas mantendo os mesmos princípios.

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Entrevista a Luís Humberto Teixeira - Parte 1

O Luís Humberto Teixeira, de quem já aqui falei, é um dos responsáveis pela proposta de revisão do sistema eleitoral apresentada pelo PAN. O tema da reforma eleitoral preocupa-me e pensei que seria interessante enviar ao Luís um conjunto de questões que considerei relevantes sobre a proposta agora apresentada e publicá-las aqui no blogue. O Luís simpaticamente aceitou responder, e aqui está o resultado final, cuja leitura, naturalmente, sugiro! Na última parte, o leitor encontrará informação sobre como procurar mais informação sobre a proposta e como colaborar, no caso de ter interesse em fazê-lo.

Agradeço desde já ao Luís a simpatia de responder às minhas perguntas.

1. Luís, em 2003, escreveste uma carta aberta ao então Presidente da República, Jorge Sampaio. O resultado foi o texto “Reciclemos o Sistema Eleitoral!”, em que defendes um sistema eleitoral misto - círculo nacional eleito proporcionalmente e círculos uninominais a nível distrital. O que esteve por trás desta carta aberta? Porquê o Presidente da República e não o Presidente da Assembleia da República ou o primeiro-ministro?

Na altura, dirigi a carta aberta ao Presidente da República, Jorge Sampaio, porque reparei que, em várias notícias, ele – mais do que o Presidente da Assembleia da República, Mota Amaral, ou o primeiro-ministro, Durão Barroso – demonstrava preocupação com os problemas que afectavam o nosso sistema eleitoral, problemas de que me comecei a aperceber enquanto jornalista quando cobria a campanha das Legislativas 2002. Foi o cabeça-de-lista do Partido da Terra pelo círculo de Setúbal, Luís Carloto Marques, quem instilou em mim o desejo de aprofundar estas questões quando, em resposta à pergunta “Porque se candidata?”, disse: “Para sensibilizar os eleitores para as ideias do MPT, pois a forma como o sistema eleitoral está construído nunca permitirá a minha eleição”. Foi desta sinceridade de quem estava consciente dos obstáculos que tinha pela frente que nasceu o meu interesse pelo sistema eleitoral.

2. Entretanto passaram quase 10 anos. Mantêm-se actuais os motivos que te levaram a escrever a Jorge Sampaio, e são eles que te levam agora a colaborar com o PAN numa nova proposta de reforma do sistema eleitoral?

Apesar de ter passado quase uma década, de ter sido criada (e extinta) a Comissão Eventual para a Reforma do Sistema Político, de muitos politólogos terem abordado o tema e de diversas propostas de alteração terem surgido e sido divulgadas publicamente, podemos dizer que, infelizmente, pouco ou nada mudou.

Os três maiores problemas que eram referidos em 2003 no “Reciclemos o Sistema Eleitoral!” – eleitores-fantasma, votos ignorados e desrespeito pelo princípio da igualdade de voto – permanecem actuais e foi por esse motivo que aceitei o convite do PAN para coordenar um grupo empenhado em propor melhorias ao sistema actual.

3. Antes de falarmos da proposta, e para enquadrar quem não conhece o tema, falemos do sistema actual. Como é que o sistema eleitoral actual funciona? Quais são os seus pontos fortes? Quais são os seus pontos fracos?

Comecemos pelo funcionamento do sistema.

Nas Legislativas são eleitos 230 deputados e, antes das eleições, o país é dividido em 22 círculos eleitorais. Por lei, os dois círculos da emigração – Europa e Fora da Europa – têm direito a dois mandatos cada. Os outros 226 mandatos são distribuídos pelos 20 círculos restantes de forma proporcional (método de Hondt), com base no número de inscritos nos cadernos eleitorais de cada círculo.

Após essa distribuição, as forças políticas concorrentes elaboram as suas listas e fazem campanha. Chegado o dia da eleição, cada eleitor deposita o voto na lista que mais lhe agrada (voto sincero) ou na que menos lhe desagrada (voto estratégico).

Depois de contados os votos, os mandatos são atribuídos, utilizando novamente o método de Hondt.
É comum dizer-se que o método de Hondt é o menos proporcional dos vários métodos matemáticos proporcionais usados em eleições, mas nem o vou incluir aqui entre os pontos fracos do sistema, pois há aspectos bem mais graves.

Um é o facto de a distribuição dos mandatos ser feita a priori com base em cadernos eleitorais que contêm, ainda, muitos eleitores-fantasma. Isto desvirtua o sistema logo desde a base.

Outro é a divisão do país em muitos círculos. Na prática, temos 20 eleições a decorrer em território nacional, e não uma. Isso desrespeita o princípio da igualdade de voto entre todos os cidadãos. O exemplo que costumo dar é o das Legislativas de 2005, nas quais 16 mil votos elegeram um deputado do CDS por Viana do Castelo, mas 22 mil votos em Braga foram insuficientes para eleger o cabeça-de-lista do Bloco de Esquerda por aquele círculo.

Depois temos a dimensão dos círculos. Em 2011, metade dos 20 círculos do território nacional tinham pequena dimensão (2 a 6 mandatos), oito possuíam tamanho médio (9 a 19 mandatos) e dois eram grandes (39 e 47 mandatos). Ora, sabendo que, quanto menor o número de mandatos por círculo, menor o aproveitamento dos votos e menor o pluralismo, deparamo-nos com uma nova fraqueza: o da quantidade de votos válidos ignorados pelo sistema. Só nas últimas eleições foram mais de meio milhão! E atingiram de forma esmagadora a representação dos partidos médios e pequenos.

Quanto a pontos fortes, pode dizer-se que o actual sistema tem permitido a chamada alternância democrática, bem como a criação de governos minoritários, governos de coligação e governos de maioria de um só partido, além de ser relativamente plural (apesar dos obstáculos consideráveis que coloca à entrada de novos partidos).

Em suma, tem sido bastante flexível, mas ainda tem muita margem de manobra para melhorias.

4. Em 2003, propunhas um sistema eleitoral misto. Sucintamente, defendias que o sistema misto permitiria valorizar o voto de cada um de nós e ao mesmo tempo fortalecer a ligação entre eleitor e eleito. Manténs essa opinião?

Apesar das vantagens do sistema misto que então defendia, a passagem pelo mestrado em Política Comparada no ICS-UL permitiu-me contactar com estudos que desmontam a ideia generalizada de que os círculos uninominais aproximam eleitores e eleitos. E isso fez-me mudar de opinião relativamente a esses círculos. É que os círculos uninominais são bons para bipolarizar os sistemas, e isso é algo que considero limitador da representatividade e do pluralismo.

5. Agora propões um sistema diferente. Dois círculos eleitorais - nacional e emigração - e nenhum círculo uninominal. Porquê um sistema diferente daquele que propuseste em 2003?

Esta proposta é fruto de um grupo de trabalho, não é inteiramente minha, o que justifica parcialmente a diferença. Mas subscrevo-a totalmente porque é mais consistente e fundamentada do que a que avancei há quase dez anos.

(Ir para a Parte 2.)