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sábado, 6 de agosto de 2011

BREAKING NEWS: S&P downgrades US credit rating

A Standard & Poor's decidiu fazer «downgrade» do «credit rating» dos EUA de AAA para AA+.

Ver aqui.

Passar o tecto de dívida com um acordo bastante vago e muito pouco sólido não foi o suficiente (ver também aqui). Pagar a dívida no curto prazo com nova dívida não foi suficiente.

Com níveis de dívida e défice extremamente elevados, problemas com a sua infraestrutura, também os Estados Unidos enfrentam a necessidade de fazer reformas estruturais, que incluem potenciais cortes quer na Defesa (o que pode ter impacto na Europa), quer na Segurança Social.

Aguarda-se o que farão a Fitch ou a Moody's.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

12 mil milhões de euros

12 mil milhões de euros.

É este o valor do célebre fundo previsto no Memorando da Troika para recapitalização dos bancos.

Estes 12 mil milhões de euros servem de último recurso, caso os bancos não consigam encontrar capital nos mercados privados para aumentar os seus rácios de capital para os níveis também previstos no Memorando.

A sua utilização significaria, essencialmente, uma nacionalização parcial desses bancos, que viria acoplada a uma panóplia de restrições à gestão desses bancos (apesar dessa gestão se manter privada).

Significaria ainda que o banco, enquanto instituição, não teria credibilidade suficiente junto dos mercados de capitais para conseguir capital privado para atingir aquele rácio de capital.

Para os accionistas do banco, por sua vez, significaria uma diluição do valor das suas acções.

Não é por acaso que os bancos querem evitar a todo o custo a utilização deste fundo. (E não é por acaso que Fernando Ulrich defendeu o que defendeu, ou que Ricardo Salgado disse o que disse.) É que, contrariamente ao que por aí se ouve, estes 12 mil milhões de euros não são uma prenda. São, quase, uma «punição».

P.S. António José Seguro já se pronunciou sobre este fundo. As suas declarações, em campanha, dão a ideia de que Seguro não percebe qual o objectivo do fundo - e, levadas à letra, qual o modelo de negócios dos bancos.

Mas o que me parece que Seguro quer dizer é que um banco que receba uma injecção de capital público para aumentar o seu rácio de capital deve, ao mesmo tempo, comprometer-se a fazer mais, ou a facilitar, os empréstimos às empresas. O que, tendo em conta que o objectivo do fundo é precisamente servir de último recurso numa tentativa de diminuir o nível de alavancagem dos bancos, é bem elucidativo de que António Seguro não parece perceber aquilo de que está a falar.

P.P.S. Ainda sobre o novo Secretário-Geral do PS, vale a pena ler este comentário às suas declarações sobre a reforma da regulação do mercado laboral. Também essas declarações mostram aquele que eu considero o problema fundamental de António José Seguro: no que toca à substância, tem queda para o vazio.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Os mercados não acalmam (V)

A Moody's colocou os EUA sob «vigilância negativa». A Standard & Poor's também o fez. (Ver, por exemplo, aqui e aqui.) E não o fizeram por a Moody's ter recebido lixo nos seus escritórios em Paris ou por «hackers» terem deitado abaixo o «site» da Moody's. Fizeram-no por causa das lutas no Congresso americano relativamente ao «debt ceiling». O «tecto de dívida» é a quantidade máxima que o Governo americano pode pedir emprestada, definida por lei). Há um risco de que não se passe uma nova lei a tempo, e isso aumenta o risco de incumprimento.

Continuarão, claro, as acusações de tratamento favorável aos EUA, apesar destes avisos da Moody's e da Standard & Poor's. E a colocação dos EUA sob «vigilância negativa» por parte de duas agências de «rating», por sinal americanas, será menosprezada por aqueles que insistam em visões anti-americanistas da crise das dívidas soberanas. Decerto encontrarão racionalizações para incluir mais este «facto» na sua narrativa de «guerra económica» entre os EUA e a Europa e na qual a China, ao que parece, é uma aliada europeia.

Afinal, a agência de «rating» chinesa Dagong Global Credit Ratings Co. cortou recentemente o «rating» da dívida dos EUA. Ora, a China investiu fortemente em dívida dos EUA, estando agora, naturalmente, preocupada em ter retorno do seu investimento. Vê com grande apreensão as lutas no Congresso relativamente ao «debt ceiling», e também não deve gostar particularmente da ideia de lhe pagarem com dinheiro inflacionado.

Nada de mais natural até aqui. E quem quiser contratar a agência de «rating» chinesa, pode certamente fazê-lo. Mas tudo o que se passa aqui é que os investidores que mais investiram em dívida americana são também aqueles que se encontram mais expostos a qualquer problema com o retorno dessa dívida. Não significa que a China tenha passado a ser uma «aliada» da Europa numa «guerra económica» com os EUA que, verdadeiramente, não existe.

O que existe é uma crise de dívida soberana que tem repercussões na Europa, nos EUA, e na própria China. Isto porque o sistema financeiro é global, e há uma interligação entre todos estes países. O que significa que é no interesse de todos eles manter o sistema financeiro estável. E isto implica que é no interesse de todos que não haja colapsos na Europa, nos EUA e na própria China. Porque esses colapsos teriam repercussões extremamente negativas a nível global, levando a consequências sociais explosivas.

Espicaçar sentimentos anti-americanos, anti-europeus ou anti-chineses de forma massiva, espevitando sentimentos de medo, não ajuda em nada a resolver a crise das dívidas soberanas. Procurar bodes expiatórios para erros internos não nos ajuda a resolver esses erros. Tentar continuar a viver uma ilusão de riqueza não torna essa riqueza real, não nos põe de novo a crescer, e não nos livra do peso terrível da dívida em excesso que se foi acumulando.

Longe de qualquer sentimento de regozijo, preocupa-me bastante que o Congresso americano não se entenda quanto à passagem do «debt ceiling». Da mesma forma que me preocupa que na Europa não nos consigamos unir e responder de forma clara e concertada ao problema. Ou que já haja preocupações relativamente à dívida pública chinesa.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Agências de Rating (II)

(Resposta ao que o Martim Horta escreveu aqui.)

Pense-se na DECO . A DECO faz testes a vários produtos, neste caso produtos físicos, como electrodomésticos, e depois apresenta a informação que recolheu aos consumidores. Esta informação ajuda os consumidores a escolher os produtos que querem comprar, dado que têm ali uma avaliação em princípio isenta/imparcial/objectiva dos produtos, tendo em atenção diversas características, o que os ajuda a comparar os produtos sem terem de os testar por si próprios.

O propósito base das agências de «rating» é o de avaliar produtos e apresentar essa avaliação ao mercado, disseminando informação pertinente sobre os ditos produtos, ajudando os investidores a escolher em que produtos investir. O propósito base é o mesmo da DECO.

Eu falei no meu último artigo, como o Martim refere, no cariz «quase-regulatório» das agências. E expliquei que falava disso no sentido de haver investidores institucionais que utilizavam a informação que as agências forneciam para fazer as suas escolhas sobre onde investir, e que se encontravam limitados, até estatutariamente, a escolher produtos com avaliações boas.

Isto não significa que as agências de «rating» regulam o mercado da forma que uma entidade pública o faz, criando regras relativas ao sistema financeiro que têm obrigatoriamente de ser cumpridas. Exemplos são banir certas formas de transacção financeira (na Alemanha, baniu-se o «naked short-selling»), as regras de capital mínimo para os bancos, ou outras. De notar que a entidade pública não vai avaliar a qualidade do produto e dizer ao mercado qual o risco de crédito daquele produto*, de acordo com uma série de critérios, que é aquilo que as agências fazem.

Deverá ser uma entidade pública a avaliar produtos financeiros? Em geral, deve ser uma entidade pública a avaliar os produtos e dizer aos consumidores o que consumir - deveríamos, no limite, nacionalizar a DECO?

Quando eu falei em cariz «quase-regulatório», referia-me ao facto de haver investidores institucionais que estatutariamente apenas podem investir em produtos financeiros que tenham boas classificações. Mas o «quase» é importante. As agências disseminam informação, informação essa que tem impacto no mercado financeiro, mas não o «regulam» da forma que as entidades públicas o fazem.

Em vez de criar uma entidade pública para avaliar produtos financeiros, parece-me que devemos, de facto, regular convenientemente as agências de «rating», no sentido, principalmente, de lidar com conflitos de interesses e com o poder de mercado que as agências detêm, por força do poder de mercado que detêm por serem poucas.

Mais uma vez, não me convencem os que dizem que o que faz falta é uma «agência de rating europeia». Basta ver que a Standard & Poor's acabou de, pela primeira vez, dizer que tem uma perspectiva negativa sobre os EUA, o que significa que até a dívida dos EUA pode deixar de ter «nota máxima». Aliás, os EUA têm sido entusiastas do euro desde a Administração Clinton, e não têm interesse em vê-lo a ir abaixo. A interdependência decorrente da globalização leva que uma crise dessa magnitude teria efeitos sistémicos e, portanto, afectaria também os EUA. Finalmente, uma «agência de rating europeia» não seria maravilhosa simplesmente por ser europeia, padeceria dos mesmos vícios de todas as outras.

P.S. Não é por acaso, já agora, que a perspectiva passou a negativa. Os EUA têm um problema de dívida pública completamente alucinante, de tal forma alucinante que já nem terem o dólar, que é a moeda de reserva global por excelência, começa a ser suficiente para poderem ignorar esse problema, como têm feito até agora.

* No original, dizia ali «bom investimento». Como o primeiro comentário ao artigo refere, e bem, isso não estava certo, e eu não fui preciso. Mas aqui, convinha ser preciso. Por isso, corrigi o artigo, e agradeço o comentário com a chamada de atenção!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Agências de Rating (I)

Escrevi três artigos sobre razões internas para os mercados não acalmarem (aquiaqui e aqui). Fi-lo porque considero que não nos podemos esquecer delas, e que falar apenas das agências de notação financeira e dos seus problemas facilita a vida a quem quer que fique tudo na mesma e as usa simplesmente como bode expiatório.

Isto não implica que as agências de notação financeira sejam perfeitas. Longe disso. Há imensos problemas com essas entidades, que é importante debater. São problemas complexos, que precisam de resolução a nível global, e que não se resolvem em cima do joelho.

Alguns pontos em destaque, sem qualquer ordem específica:
- As agências são entidades privadas, cujo capital é detido por outras entidades, que podem ter interesses no que toca aos produtos que são avaliados pelas agências;
- As agências prestavam serviços de consultoria, além de fazerem notações, o que gerava outro conflito de interesses;
- As agências são pagas pelas entidades cujos produtos são avaliados, e não pelos compradores desses produtos, o que pode gerar conflito de interesses - ao mesmo tempo, e apesar de apreciarem que haja avaliações, é pouco credível que os compradores estejam dispostos a pagar por elas;
- As notações das agências têm cariz quase regulatório, porque as avaliações que fazem têm impacto directo no tipo de produtos que são ou não comprados por certo tipo de investidores (ex. há investidores institucionais que só podem, estatutariamente, comprar títulos com a notação máxima);
- As agências falharam em toda a linha durante a crise financeira porque não conseguiram ter em devida conta o risco de mercado na avaliação do risco de crédito - ora, as notações que elas fazem são usadas pelas entidades para definir não apenas em que investir, mas como investir, o que significa o tipo de garantias que procuram obter e como se protegem (trocado por miúdos: durante a crise, havia títulos bem classificados e que levaram várias entidades a comprá-los sem se protegerem devidamente, o que causou problemas de monta quando os títulos se revelaram lixo);
- Não há regulação pública eficaz das agências;
- Se as agências fossem entidades públicas, o problema de conflito de interesses poderia ser colocado ao nível da entidade pública que as financiasse;
- Há muito poucas agências com credibilidade global, o que dá a cada agência uma enorme quantidade de poder sobre o mercado, poder esse que fica sujeito a abusos;
- Há quem fale muito das agências serem americanas, e fale de se criar uma 'agência europeia', mas eu considero que o problema é mesmo estrutural, e que uma 'agência europeia' teria exactamente os mesmos problemas de uma 'agência americana' - e nasceria sempre com um ónus de credibilidade em relação às suas avaliações de produtos europeus, que poderiam ser considerados demasiado simpáticos (o que poderia ter problemas ao nível da agência poder querer 'compensar' isso).

Tudo isto tem de ser debatido convenientemente e têm de se encontrar possíveis soluções. As agências têm um papel importante no sistema financeiro, falharam durante a crise, e desde anúncios às tantas da noite, a previsões de crescimento potencial para este ano superiores às do Governo (com ameaça de downgrade caso não se crescesse aquilo), já se viu de tudo um pouco no que toca à sua relação com Portugal. Mas de novo tenho de referir que isto não implica que não tenhamos de assumir as nossas responsabilidades na crise que nos assola. A nossa crise vai para além da crise financeira. É uma crise económica e social e já vem de antes de 2007-8. É preciso que não nos esqueçamos disso. Só assim é possível mudar.