Há uma ladainha que se repete no nosso debate público. Essa ladainha transforma Alemanha ou Grécia (consoante quem debita a ladainha; outra alternativa são os EUA, mas estão menos em voga) em demónios e assenta em ressentimentos, «revanchismos», dados tirados do contexto/meias-verdades e puras e simples mentiras e teorias da conspiração. Essa ladainha é parte dos nossos problemas.
Primeiro, essa ladainha, em muitas das suas versões, retira toda e qualquer responsabilidade pelo que está a acontecer aos cidadãos. Trata-os como coitadinhos, como vítimas, como peões num jogo que nunca poderiam tentar influenciar. Só que não é bem assim, e esta desresponsabilização é muito perigosa porque corrói a base do sistema democrático.
A base de uma democracia ocidental moderna é a intervenção cívica dos cidadãos. As escolhas que esses cidadãos fizeram nas urnas, as escolhas que fizeram ao decidir abster-se, a apatia e desinteresse generalizados em relação à política, a fraqueza da sociedade civil, tudo isto é parte do que nos trouxe até à crise, e tudo isto é da responsabilidade dos cidadãos. Tudo isto é responsabilidade nossa.
Parte da solução para a crise encontra-se precisamente em os cidadãos assumirem essa responsabilidade, em a sociedade civil organizada assumir as suas responsabilidades. Identificar claramente o facto disto não ter acontecido no passado como uma das causas da crise, como foi, é importante para tornar claro que esta crise que vivemos é precisamente um dos resultados possíveis do alheamento político da generalidade da população.
Por outro lado, desresponsabilizar os cidadãos por aquilo que se passa é uma forma de retirar legitimidade ao sistema democrático vigente. O discurso anti-políticos, anti-partidos, anti-parlamento das versões mais extremas da ladainha tem por objectivo substituir a nossa democracia, imperfeita que é, por um sistema em que o poder cai na rua. E quando o poder cai na rua, não é uma «democracia real» que vem a seguir. A não ser que por «democracia real» se entenda o «caos». Ou então, o poder não cai na rua: simplesmente voltamos a ter uma ditadura.
Assumir as nossas responsabilidades cívicas enquanto cidadãos, tomar consciência de que viver em democracia implica, para que esta continue de boa saúde, o cumprimento de deveres cívicos, é um passo em frente na resolução dos nossos problemas. Essa tomada de consciência colectiva é enfraquecida por discursos populistas que tratam os cidadãos como crianças manipuladas, manipuláveis e incapazes.
A ladainha é perversa também porque nos lança uns contra os outros. PSD contra PS. Portugueses contra Alemães. Norte contra o Sul. Irlandeses contra Portugueses. Gregos contra todos. No final, em vez de um debate sobre como resolver os nossos problemas, em vez de um debate sobre como acertar posições, temos trocas de acusações estéreis, interpretações maliciosas sobre tudo o que o «outro lado» faz, descaracterizações mútuas, e uma grande dose de histeria.
É fundamental que se tentem compreender as posições de todos os que estão à mesa a debater a reforma do Estado e a reforma da União Europeia. Compreender as posições de todos, não tratar todos como se de estereótipos ambulantes se tratassem, e tentar encontrar compromissos. A ladainha cria ruído, histeria e apelos «revanchistas» e, nas suas versões mais extremas, xenófobos; cria uma narrativa de conflito inconciliável que ajuda a que tudo se desintegre, em vez de ajudar a que tudo se resolva.
A ladainha emerge da crise, alimenta-se da crise, mas alimenta também a própria crise. É um círculo vicioso, em que comentadores, meios de comunicação social, blogues e outros intervenientes mediáticos parecem encontrar-se numa câmara de eco, a repetir várias versões da ladainha. Em que as posições se extremam desnecessariamente, em que ódios se inflamam, em que atirar pedras à Assembleia da República ou comparar a Chanceler Merkel a Adolf Hitler é tratado com paninhos quentes por muito boa gente.
É neste contexto que o filme de Marcelo Rebelo de Sousa e Rodrigo Moita de Deus se insere. Esse filme, em poucos minutos, apresenta-nos a versão anti-Alemanha da ladainha. A análise oca, feita com base em títulos de jornal e meias-verdades, é patente. Em vez de discutirmos uma proposta que existe, do eurodeputado liberal e Presidente da União dos Federalistas Europeus, Andrew Duff, para alterar o sistema eleitoral europeu, ou de discutirmos seriamente a proposta do Governo e do PS (apoiada pela Chanceler Merkel) de criação de um banco de fomento, acabamos a ver um vídeo mesquinho que apresenta «os portugueses» no seu pior, e a fingir que foi impedida a sua transmissão na Alemanha (não foi; não foi permitida a sua passagem na Praça Sony, mas o filme foi transmitido na Alemanha).
A ladainha pode servir para que algumas pessoas se sintam bem com elas próprias, culpando outros por todos os males que as assolam, mas serve também para nos paralisar. No meio do ruído, no meio das sucessivas histerias por este ou aquele caso mediático sem conteúdo útil, não se vê uma discussão sobre o essencial. Importantes reformas na lei da concorrência, na lei das rendas e na lei da insolvência, por exemplo, foram atiradas para o ar, estiveram no ar uns tempinhos, e desapareceram.
A ladainha não me atrai. É notório que está assente em bases pouco sólidas, que parecem sólidas porque são repetidas e repetidas e repetidas por muita gente, a quem depois não é reclamado que justifique as suas posições para além de meia dúzia de chavões e um ou outro número. A ladainha não me atrai e parece-me destrutiva, uma espécie de areia movediça na qual nos afundamos sem reparar. Longe de nos ajudar a resolver a crise, fortalece-a, e cria bloqueios para a sua resolução.
Ora, temos de deitar abaixo esses bloqueios. Temos de contrariar a ladainha, de a pôr em causa, de mostrar que é vazia e oca e que nos está a fazer ir para baixo e não para cima. À Esquerda e à Direita, porque a ladainha, embora una nas suas implicações e na sua roupagem, tem variações. É nossa responsabilidade pôr em causa esta nova forma de «sabedoria convencional» que tem muito de convencional e nada, mesmo nada, de sabedoria.
"Deve haver um dia em que a sociedade, como os indivíduos, chegue à maioridade." - Alexandre Herculano
Mostrar mensagens com a etiqueta Alemanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alemanha. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
A ladainha
Etiquetas:
Alemanha,
debate público,
integração europeia,
ladainha,
reforma do Estado,
reformas estruturais
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Rodrigo Moita de Deus pensa mesmo aquilo?
Rodrigo Moita de Deus escreve no 31 da Armada. Costuma ter piada. A maior parte do que faz no blogue é dizer coisas engraçadas mas sem grande conteúdo. Dá para rir, geralmente. Esperar-se-ia que Rodrigo Moita de Deus tivesse mais conteúdo que o que evidencia nos seus vídeos satíricos e nas piadinhas que vai lançando no blogue.
Pelos vistos, no entanto, Rodrigo Moita de Deus acha que a ladainha simplista sobre a crise que nos sufoca é de alguma forma algo a promover fora de portas. Não satisfeito por a população portuguesa ser sujeita a análises sofríveis sobre a crise, e ser estereotipada, Rodrigo Moita de Deus decidiu, inspirado pelo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, fazer um filme cheio de erros factuais, de qualidade técnica sofrível mesmo do ponto de vista de um verdadeiro amador, em que os portugueses são estereotipados pelo próprio filme (ironia das ironias) e apresentados no seu pior.
Aquilo que me aborrece mais nisto tudo é que Rodrigo Moita de Deus é dirigente no PSD. Tem responsabilidades num partido que é o maior partido da maioria que sustenta o Governo. E o conteúdo passivo-agressivo daquele filme, que eu presumo reproduza as ideias defendidas por Rodrigo Moita de Deus, é de bradar aos céus. Será possível que Rodrigo Moita de Deus seja assim tão oco que verdadeiramente acredita naquelas coisas? Será que é isto o melhor que podemos esperar de um dirigente do PSD e de um antigo Líder da Oposição da área social democrata (Marcelo Rebelo de Sousa)?
Podiam ter lançado um concurso para que pessoas fizessem filmes a promover Portugal, e depois escolhido os melhores. Podiam ter lançado o projecto num «site» de «crowdfunding» para terem dinheiro para fazerem um filme com maior qualidade técnica. Podiam ter feito um filme que mostrasse que havia ali ideias, que havia ali alguma pesquisa que ia para além dos títulos e das capas dos tablóides. Podiam ter simplesmente posto o vídeo na Internet, em vez de tentar passá-lo no meio de Berlim (e depois enviar cartas de protesto ao embaixador da Alemanha quando isto não foi admitido - para grande sorte dos portugueses).
Rodrigo Moita de Deus pensa mesmo aquilo que está naquele filme? Marcelo Rebelo de Sousa pensa mesmo aquilo que está naquele filme? É isto que eles acham que teria piada representar Portugal? É isto que eles acham do que se passou nos últimos 10 anos (para não ir mais longe...) em Portugal? É isto que eles pensam da «troika»? Se é, fico esclarecido - as opiniões daquelas duas pessoas resumem-se ao que leram apressadamente em blogues e em artigos de opinião, e não em investigações sérias sobre o que se está a passar em Portugal, na Europa e no mundo. Se não é, fico na dúvida da razão para acharem que fazer um filme com aquele conteúdo ajudaria Portugal junto da opinião pública alemã.
Entretanto, Angela Merkel visitou o país e deu o seu apoio ao Governo. Disse ainda que o Governo alemão ajudaria Portugal a criar o seu banco de fomento (o tal que tanto PSD como PS querem criar). E convém lembrar que o Governo alemão tem apoiado um imposto sobre as transacções financeiras (o tal que o PSD e o PS querem) a nível europeu. François Hollande, entretanto, fez uma desvalorização fiscal (ninguém foi perguntar a António José Seguro o que pensava sobre o tema). E o PS acusou o Governo de «subserviência» face a Angela Merkel (como sempre) e queria ser convidado para falar com a Chanceler (a que título, não sabemos).
Alguém lembre o PS de que estão na Oposição e que não são por inerência convidados a falar com a Chanceler da Alemanha quando esta visita Portugal - e já que queriam tanto, podiam ter pedido (por carta, naturalmente, que no PS faz-se tudo por carta, posteriormente publicada no Facebook). Alguém lembre o PS de que da última vez que foram convidados a falar com alguém sobre temas sérios, nomeadamente os cortes de 4000 milhões a preparar até Fevereiro do ano que vem, o PS lavou daí as suas mãos. E alguém lembre ao PS que ainda recentemente visitaram a França para falar com François Hollande e tratam François Hollande (que aplica austeridade e desvalorizações fiscais em França) como se fosse o último grande herói - também se vão acusar a si próprios de subserviência?
De facto, é bem provável e bem possível que Rodrigo Moita de Deus pense mesmo aquilo que está naquele filme. Que um dirigente do PSD e um dos principais fazedores de opinião do país, Marcelo Rebelo de Sousa, de facto pensem que aquilo que puseram naquele filme, de forma «satírica», tem subjacente uma análise séria da situação em que nos encontramos. E sendo isto verdade, é um sintoma claro da fraca qualidade do nosso debate público, porque a análise subjacente àquele filme é do menos séria e do mais simplista, demagógica e populista que se pode encontrar.
Por outro lado, dão-me esperança algumas críticas que li àquele filme. E quanto mais depressa passarmos deste filme a propostas concretas de corte de despesa, melhor. Quanto mais depressa passarmos deste filme para o Governo vir anunciar ideias específicas e fundamentadas e sustentadas para a reforma do Estado, melhor. E quanto menos filmes Rodrigo Moita de Deus e Marcelo Rebelo de Sousa quiserem no futuro projectar na Praça Sony em Berlim, melhor também.
Pelos vistos, no entanto, Rodrigo Moita de Deus acha que a ladainha simplista sobre a crise que nos sufoca é de alguma forma algo a promover fora de portas. Não satisfeito por a população portuguesa ser sujeita a análises sofríveis sobre a crise, e ser estereotipada, Rodrigo Moita de Deus decidiu, inspirado pelo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, fazer um filme cheio de erros factuais, de qualidade técnica sofrível mesmo do ponto de vista de um verdadeiro amador, em que os portugueses são estereotipados pelo próprio filme (ironia das ironias) e apresentados no seu pior.
Aquilo que me aborrece mais nisto tudo é que Rodrigo Moita de Deus é dirigente no PSD. Tem responsabilidades num partido que é o maior partido da maioria que sustenta o Governo. E o conteúdo passivo-agressivo daquele filme, que eu presumo reproduza as ideias defendidas por Rodrigo Moita de Deus, é de bradar aos céus. Será possível que Rodrigo Moita de Deus seja assim tão oco que verdadeiramente acredita naquelas coisas? Será que é isto o melhor que podemos esperar de um dirigente do PSD e de um antigo Líder da Oposição da área social democrata (Marcelo Rebelo de Sousa)?
Podiam ter lançado um concurso para que pessoas fizessem filmes a promover Portugal, e depois escolhido os melhores. Podiam ter lançado o projecto num «site» de «crowdfunding» para terem dinheiro para fazerem um filme com maior qualidade técnica. Podiam ter feito um filme que mostrasse que havia ali ideias, que havia ali alguma pesquisa que ia para além dos títulos e das capas dos tablóides. Podiam ter simplesmente posto o vídeo na Internet, em vez de tentar passá-lo no meio de Berlim (e depois enviar cartas de protesto ao embaixador da Alemanha quando isto não foi admitido - para grande sorte dos portugueses).
Rodrigo Moita de Deus pensa mesmo aquilo que está naquele filme? Marcelo Rebelo de Sousa pensa mesmo aquilo que está naquele filme? É isto que eles acham que teria piada representar Portugal? É isto que eles acham do que se passou nos últimos 10 anos (para não ir mais longe...) em Portugal? É isto que eles pensam da «troika»? Se é, fico esclarecido - as opiniões daquelas duas pessoas resumem-se ao que leram apressadamente em blogues e em artigos de opinião, e não em investigações sérias sobre o que se está a passar em Portugal, na Europa e no mundo. Se não é, fico na dúvida da razão para acharem que fazer um filme com aquele conteúdo ajudaria Portugal junto da opinião pública alemã.
Entretanto, Angela Merkel visitou o país e deu o seu apoio ao Governo. Disse ainda que o Governo alemão ajudaria Portugal a criar o seu banco de fomento (o tal que tanto PSD como PS querem criar). E convém lembrar que o Governo alemão tem apoiado um imposto sobre as transacções financeiras (o tal que o PSD e o PS querem) a nível europeu. François Hollande, entretanto, fez uma desvalorização fiscal (ninguém foi perguntar a António José Seguro o que pensava sobre o tema). E o PS acusou o Governo de «subserviência» face a Angela Merkel (como sempre) e queria ser convidado para falar com a Chanceler (a que título, não sabemos).
Alguém lembre o PS de que estão na Oposição e que não são por inerência convidados a falar com a Chanceler da Alemanha quando esta visita Portugal - e já que queriam tanto, podiam ter pedido (por carta, naturalmente, que no PS faz-se tudo por carta, posteriormente publicada no Facebook). Alguém lembre o PS de que da última vez que foram convidados a falar com alguém sobre temas sérios, nomeadamente os cortes de 4000 milhões a preparar até Fevereiro do ano que vem, o PS lavou daí as suas mãos. E alguém lembre ao PS que ainda recentemente visitaram a França para falar com François Hollande e tratam François Hollande (que aplica austeridade e desvalorizações fiscais em França) como se fosse o último grande herói - também se vão acusar a si próprios de subserviência?
De facto, é bem provável e bem possível que Rodrigo Moita de Deus pense mesmo aquilo que está naquele filme. Que um dirigente do PSD e um dos principais fazedores de opinião do país, Marcelo Rebelo de Sousa, de facto pensem que aquilo que puseram naquele filme, de forma «satírica», tem subjacente uma análise séria da situação em que nos encontramos. E sendo isto verdade, é um sintoma claro da fraca qualidade do nosso debate público, porque a análise subjacente àquele filme é do menos séria e do mais simplista, demagógica e populista que se pode encontrar.
Por outro lado, dão-me esperança algumas críticas que li àquele filme. E quanto mais depressa passarmos deste filme a propostas concretas de corte de despesa, melhor. Quanto mais depressa passarmos deste filme para o Governo vir anunciar ideias específicas e fundamentadas e sustentadas para a reforma do Estado, melhor. E quanto menos filmes Rodrigo Moita de Deus e Marcelo Rebelo de Sousa quiserem no futuro projectar na Praça Sony em Berlim, melhor também.
Etiquetas:
Alemanha,
Marcelo Rebelo de Sousa,
Rodrigo Moita de Deus,
vídeo
domingo, 11 de novembro de 2012
Um vídeo para esquecer
Tive a infelicidade de assistir, do início ao fim, ao vídeo que Marcelo Rebelo de Sousa lançou e no qual Rodrigo Moita de Deus ajudou. (Pode ser visto, por exemplo, aqui, em alemão, e aqui, em português.)
Esteticamente, o amadorismo é patente. Músicas várias rapidamente cortadas servem de banda sonora a um conjunto de figuras sorridentes e de estereótipos que avançam em direcção a uma câmara que se afasta. A meu ver, palavras como «foleiro», «piroso» e sinónimos são perfeitamente aplicáveis.
Mas o pior do filme não é a parte estética, por muito má que esta seja. É mesmo a narração. É o conteúdo programático no filme, que supostamente devia ajudar-nos a conquistar a opinião pública alemã, mas que não tem rigorosamente nada a ver com a opinião pública alemã. Não, tem tudo a ver com a opinião pública portuguesa.
O conteúdo do filme é a ladaínha que comentadores vários vão despejando sobre leitores de jornais ou espectadores de programas de televisão cá em Portugal. Nada naquele vídeo tem alguma coisa a ver com alemães ou com preocupações alemãs. É um vídeo feito por portugueses para portugueses, que por algum motivo que me escapa ia, se projectado na Praça Sony em Berlim, servir para de alguma forma ajudar em alguma coisa.
Na minha opinião, aquele filme, projectado na Praça Sony, serviria para cobrir o país inteiro de ridículo, não ajudaria nada a conquistar a opinião pública alemã, e ajudaria a reforçar estereótipos sobre os portugueses. Porque é que os alemães deveriam levar a sério um filme a tentar ser engraçado feito por portugueses com comparações quase passivo-agressivas com a Alemanha, e com culpabilizações da Alemanha, ao mesmo tempo falando em «solidariedade» quando a Alemanha já nos está a emprestar dinheiro?
Aquele filme representa aquilo que várias pessoas em Portugal gostariam de dizer aos alemães, por razões que a elas pertencem. Mas não tem nada em atenção as preocupações alemãs. Não tem em atenção as sensibilidades alemãs. Em suma, está-se completamente nas tintas para o seu suposto público alvo. Poderá receber muitos aplausos entre alguns portugueses que com aquela mensagem se identifiquem, mas em que é que interessaria verdadeiramente a alemães?
Aliás, a mensagem do filme podia bem ser levada bastante a mal por vários alemães, que não gostariam necessariamente (eufemismo) de lhes serem atiradas à cara as «lembranças» em relação à Alemanha que o filme contém. Um filme que tem por objectivo convencer alemães a apoiarem Portugal tratar os alemães da forma aquele filme faz, cheio de recadinhos e mensagens quase passivo-agressivas, não parece ter por verdadeiro objectivo convencer alemães. Facilmente aquilo era interpretado como pouco mais que um julgamento à Alemanha.
A utilização da imagem do Muro de Berlim no final do filme da forma que é usada apenas serve para mostrar a vacuidade daquele projecto. Um apelo a um símbolo de verdadeira divisão e ao fim da Guerra Fria, como se o que se passa agora e a Guerra Fria fossem tão linearmente comparáveis. A evocação do discurso «Ich bin ein Berliner» quando o objectivo é que a Alemanha quase que despeje dinheiro em Portugal sem quaisquer constrangimentos, e ao mesmo tempo que sempre que o Governo alemão diz alguma coisa, é apresentando como um demónio por ser supostamente neo-imperalista.
Aquele vídeo é um bom símbolo daquilo que vai mal na política portuguesa, em que comentadores tratam assuntos complexos pela rama, criando narrativas simplistas e demagógicas sobre a crise. Em que conversa fiada é tomada como «sensibilidade social» e em que as análises se centram no tacticismo político e não na substância das medidas. (Editado: E em que vídeos «giros» de propaganda que ignoram as preocupações alemãs mas visam alemães, e lhes tentam atirar à cara a ladaínha mediática portuguesa, são apresentados, e vistos, como forma de ajudar o país.)
Etiquetas:
Alemanha,
debate público,
Marcelo Rebelo de Sousa,
Rodrigo Moita de Deus,
vídeo
Vídeos na Praça Sony não resolvem problemas
Quando ouvi pela primeira vez falar da ideia de Marcelo Rebelo de Sousa de criar um pequeno vídeo «promocional» sobre Portugal para passar na Alemanha, na senda do vídeo relativo à Finlândia, tive a mesma reacção que tive em relação ao vídeo inspirador: que era uma ideia sem particular interesse e não nos ia ajudar a resolver os nossos problemas. Imaginei que quisessem passá-la na televisão ou pôr o vídeo na Internet, que ia ser história para um dia, e depois ia ser votado a um merecido esquecimento.
Pelos vistos, o objectivo era passar o tal vídeo numa das principais praças de Berlim. Felizmente, não foram autorizados a fazê-lo. Longe de promover Portugal, aquele vídeo, então se o conteúdo fosse o descrito na notícia, iria cobrir o país e os portugueses de ridículo. Porque é ridículo projectar um vídeo a dizer que em Portugal se trabalha muitas horas e se paga muitos impostos e que somos muito bons. O nosso problema de produtividade não se resolve assim, e na Alemanha a nossa imagem não é a mesma da Grécia. Além disso, não há de facto outra palavra para descrever melhor aquilo: seria ridículo.
Foi uma bênção terem-se recusado a projectar aquele vídeo, para nos pouparem o vexame e o embaraço de ver o seu conteúdo projectado daquela forma. Imaginemos que alguém na Alemanha decidia vir cá a Portugal projectar um vídeo numa das principais praças de Lisboa ou do Porto a dizer que devemos implementar medidas de austeridade ou o que seja. Qual não seria o alvoroço. Mas, ao que parece, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa e os seus apaniguados deviam poder projectar um vídeo de propaganda na Praça Sony - porque sim.
Não contente com o absurdo do próprio vídeo, Rodrigo Moita de Deus resolveu escrever uma carta à Embaixada da Alemanha a queixar-se da recusa em tom exaltado. Eu teria escrito uma carta a agradecer, e a pedir que outras iniciativas deste tipo tenham tratamento semelhante. E sugiro a Rodrigo Moita de Deus que perca menos tempo neste tipo de projectos sem conteúdo e mais tempo a participar, de forma relevante, no debate sobre a reforma do Estado que o Governo lançou. É que a reforma do Estado ajuda a resolver problemas estruturais do país. Vídeos de propaganda do tipo em causa servem para perder tempo.
Finalmente, assalta-me uma dúvida. Parece que os promotores da iniciativa querem que o filme chegue ao seu destinatário (o povo alemão, pelo que percebo). Já ouviram falar da Internet? Não que eu queira o vídeo publicitado. Por mim, ficava com Marcelo Rebelo de Sousa, para eventual visionamento nocturno com os amigos e, dentro de algumas décadas, poderia ser recuperado como documento histórico, e visto como forma de entretenimento para pessoas com interesse em História com vontade de rir. Mas já que querem tanto publicitar o vídeo, podem facilmente colocá-lo na Internet. Logo a seguir, vai passar nas televisões portuguesas. E podem também enviar o vídeo às televisões alemãs.
Tudo isto parece ser demasiado complexo para Marcelo Rebelo de Sousa, Rodrigo Moita de Deus e o resto das pessoas envolvido neste projecto que diz tanto sobre a actual situação portuguesa. É que em vez de estarem à procura de soluções substantivas para os nossos problemas, estas pessoas estão a fazer vídeos a dizer aos alemães que os portugueses são bué da fixes, pagam bué da impostos e trabalham bué da horas. E eu prefiro que os alemãs pensem que nós estamos de facto a tentar resolver os nossos problemas - e não a fazer vídeos a implorar que eles venham resolvê-los por nós, dando-nos dinheiro. É que essa é a melhor forma de a opinião pública alemã apoiar ajudas a Portugal, convencê-la de que nós estamos a assumir responsabilidade pelos nossos erros e o contexto internacional é adverso.
A melhor forma de fazer isto é, efectivamente, assumindo essa responsabilidade e tendo um debate sério sobre reforma do Estado, e continuar a tomar medidas para melhorar a nossa Economia. A Chanceler Merkel e membros do seu Governo, que por cá é passatempo insultar todos os dias, têm elogiado Portugal. A Chanceler, por sua vez, é popular na Alemanha. Esse tipo de apoio do Governo alemão, e do SDP, é muito mais importante para Portugal junto da opinião pública alemã do que um vídeo de Marcelo Rebelo de Sousa e dos seus amigos.
Contrariamente ao que por aí se lê, a Alemanha não quer criar um novo império, nem tem demonstrado particular apetência por o fazer. A União Europeia gera interdependências que significam que não é no interesse da Alemanha que Portugal vá abaixo (e quem diz Portugal, diz a restante União Europeia) e que aliás até será no seu interesse que Portugal e o resto da União Europeia prosperem. Sendo federalista, não concordo com as propostas alemãs (que não são necessariamente apenas alemãs, diga-se) para a resolução da crise. Mas não se pode ignorar os problemas políticos, económicos e financeiros levantados pela Alemanha, pelos Países Baixos, pela Suécia e apelidá-los de «terríveis» de forma a não se lidar com eles, ao mesmo tempo tratando o novo Governo francês (sob ataque por causa das suas próprias medidas de austeridade) como se fosse algo de messiânico.
O grande debate europeu sobre a federalização da União Europeia, para um federalista, passa por tornar claro ao Norte da Europa e ao Sul da Europa que uma federação europeia é a melhor forma de conciliar as suas posições. [Editado: Que, aliás, temos interesses comuns e que estamos todos juntos nisto.] Insultar a Alemanha (ou Grécia, diga-se) não ajuda rigorosamente nada neste ensejo, nem tratar as suas propostas como demoníacas. Ao mesmo tempo, também não ajuda rigorosamente nada passar vídeos de propaganda simplistas na Praça Sony. Aliás, teria tudo para nos prejudicar, dado que a cobertura mediática do vídeo não seria necessariamente (eufemismo) simpática, nem a cobertura política, nem a reacção da opinião pública.
O tempo das falsas soluções acabou. Nunca chegou, aliás, a começar. Se querem tanto, que ponham o vídeo na Internet e vejam se alguém lhes liga alguma coisa. Mas deixem a Praça Sony em paz.
Pelos vistos, o objectivo era passar o tal vídeo numa das principais praças de Berlim. Felizmente, não foram autorizados a fazê-lo. Longe de promover Portugal, aquele vídeo, então se o conteúdo fosse o descrito na notícia, iria cobrir o país e os portugueses de ridículo. Porque é ridículo projectar um vídeo a dizer que em Portugal se trabalha muitas horas e se paga muitos impostos e que somos muito bons. O nosso problema de produtividade não se resolve assim, e na Alemanha a nossa imagem não é a mesma da Grécia. Além disso, não há de facto outra palavra para descrever melhor aquilo: seria ridículo.
Foi uma bênção terem-se recusado a projectar aquele vídeo, para nos pouparem o vexame e o embaraço de ver o seu conteúdo projectado daquela forma. Imaginemos que alguém na Alemanha decidia vir cá a Portugal projectar um vídeo numa das principais praças de Lisboa ou do Porto a dizer que devemos implementar medidas de austeridade ou o que seja. Qual não seria o alvoroço. Mas, ao que parece, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa e os seus apaniguados deviam poder projectar um vídeo de propaganda na Praça Sony - porque sim.
Não contente com o absurdo do próprio vídeo, Rodrigo Moita de Deus resolveu escrever uma carta à Embaixada da Alemanha a queixar-se da recusa em tom exaltado. Eu teria escrito uma carta a agradecer, e a pedir que outras iniciativas deste tipo tenham tratamento semelhante. E sugiro a Rodrigo Moita de Deus que perca menos tempo neste tipo de projectos sem conteúdo e mais tempo a participar, de forma relevante, no debate sobre a reforma do Estado que o Governo lançou. É que a reforma do Estado ajuda a resolver problemas estruturais do país. Vídeos de propaganda do tipo em causa servem para perder tempo.
Finalmente, assalta-me uma dúvida. Parece que os promotores da iniciativa querem que o filme chegue ao seu destinatário (o povo alemão, pelo que percebo). Já ouviram falar da Internet? Não que eu queira o vídeo publicitado. Por mim, ficava com Marcelo Rebelo de Sousa, para eventual visionamento nocturno com os amigos e, dentro de algumas décadas, poderia ser recuperado como documento histórico, e visto como forma de entretenimento para pessoas com interesse em História com vontade de rir. Mas já que querem tanto publicitar o vídeo, podem facilmente colocá-lo na Internet. Logo a seguir, vai passar nas televisões portuguesas. E podem também enviar o vídeo às televisões alemãs.
Tudo isto parece ser demasiado complexo para Marcelo Rebelo de Sousa, Rodrigo Moita de Deus e o resto das pessoas envolvido neste projecto que diz tanto sobre a actual situação portuguesa. É que em vez de estarem à procura de soluções substantivas para os nossos problemas, estas pessoas estão a fazer vídeos a dizer aos alemães que os portugueses são bué da fixes, pagam bué da impostos e trabalham bué da horas. E eu prefiro que os alemãs pensem que nós estamos de facto a tentar resolver os nossos problemas - e não a fazer vídeos a implorar que eles venham resolvê-los por nós, dando-nos dinheiro. É que essa é a melhor forma de a opinião pública alemã apoiar ajudas a Portugal, convencê-la de que nós estamos a assumir responsabilidade pelos nossos erros e o contexto internacional é adverso.
A melhor forma de fazer isto é, efectivamente, assumindo essa responsabilidade e tendo um debate sério sobre reforma do Estado, e continuar a tomar medidas para melhorar a nossa Economia. A Chanceler Merkel e membros do seu Governo, que por cá é passatempo insultar todos os dias, têm elogiado Portugal. A Chanceler, por sua vez, é popular na Alemanha. Esse tipo de apoio do Governo alemão, e do SDP, é muito mais importante para Portugal junto da opinião pública alemã do que um vídeo de Marcelo Rebelo de Sousa e dos seus amigos.
Contrariamente ao que por aí se lê, a Alemanha não quer criar um novo império, nem tem demonstrado particular apetência por o fazer. A União Europeia gera interdependências que significam que não é no interesse da Alemanha que Portugal vá abaixo (e quem diz Portugal, diz a restante União Europeia) e que aliás até será no seu interesse que Portugal e o resto da União Europeia prosperem. Sendo federalista, não concordo com as propostas alemãs (que não são necessariamente apenas alemãs, diga-se) para a resolução da crise. Mas não se pode ignorar os problemas políticos, económicos e financeiros levantados pela Alemanha, pelos Países Baixos, pela Suécia e apelidá-los de «terríveis» de forma a não se lidar com eles, ao mesmo tempo tratando o novo Governo francês (sob ataque por causa das suas próprias medidas de austeridade) como se fosse algo de messiânico.
O grande debate europeu sobre a federalização da União Europeia, para um federalista, passa por tornar claro ao Norte da Europa e ao Sul da Europa que uma federação europeia é a melhor forma de conciliar as suas posições. [Editado: Que, aliás, temos interesses comuns e que estamos todos juntos nisto.] Insultar a Alemanha (ou Grécia, diga-se) não ajuda rigorosamente nada neste ensejo, nem tratar as suas propostas como demoníacas. Ao mesmo tempo, também não ajuda rigorosamente nada passar vídeos de propaganda simplistas na Praça Sony. Aliás, teria tudo para nos prejudicar, dado que a cobertura mediática do vídeo não seria necessariamente (eufemismo) simpática, nem a cobertura política, nem a reacção da opinião pública.
O tempo das falsas soluções acabou. Nunca chegou, aliás, a começar. Se querem tanto, que ponham o vídeo na Internet e vejam se alguém lhes liga alguma coisa. Mas deixem a Praça Sony em paz.
Etiquetas:
Alemanha,
debate público,
Marcelo Rebelo de Sousa,
Portugal,
Rodrigo Moita de Deus,
vídeo
domingo, 10 de junho de 2012
Amor a Portugal a Pensar no Avô!
É um trabalho sujo mas alguém tinha que o fazer.
Num dia em que muitos lambem as feridas, pela derrota futeboleira de ontem, com a Alemanha.
Leio este texto no Combustões e penso no meu Avô. Ele ganhou à Alemanha!
Uma vida melhor, para ele e para a Família e também para o País.
Ainda sou daquele tempo em que a familia se juntava para ver a nossa canção da Eurovisão, sabendo que não havia hipótese, mas com aquele sofrer português, misto de esperança e resignação.
Portugal é mais do que Futebol, passaram oito séculos desde que aqui estamos, venham mais oito!
Hoje é Dia de Portugal!
Dá-lhe Dulce!
Etiquetas:
Alemanha,
combustões,
Dulce Pontes,
liberaes musicaes,
Patriotismo
domingo, 27 de novembro de 2011
Braços de ferro europeus
Enquanto a União Europeia continuar a ter debates assentes na ideia de que esta crise se resolve através de uma luta entre os seus Estados Membros e em que as soluções devem ser adoptadas por auxiliarem os Estados Membros individualmente considerados, não vamos lá. Enquanto cada solução for apresentada e defendida por resolver o problema de quem a propõe, sendo que «os outros» ou «a outra» a têm ou a tem de aceitar «porque sim» não vamos lá.
É preciso que os constantes braços de ferro sejam substituídos por espírito de compromisso e que estivesse a ter lugar um verdadeiro debate europeu sobre o futuro da União Europeia. Um debate que não assentasse em mitos e distorções de ambos os lados e em que os argumentos a favor e contra a soberania nacional fossem passados a pente fino. Mas tendo em conta que a maior parte da população não sabe sequer como funciona a União Europeia actualmente, isto torna-se quase impossível.
A actual crise na União Europeia torna-se muito mais difícil de resolver porque o debate europeu se tem mantido longe da população em geral, até mesmo mais que o debate político em geral. Nas eleições europeias fala-se de assuntos «nacionais» e quem concorre são os partidos «nacionais», apesar de já existirem partidos europeus. Os noticiários (em Portugal, mas imagino que em geral) tratam o que se passa no Parlamento Europeu de forma secundária e focam-se no Conselho.
A Comissão agora retomou a iniciativa, com propostas relativas a impostos sobre transacções financeiras e «eurobonds». Da Alemanha ouvem-se propostas sobre uma união fiscal (também com a França e com o novo Governo italiano de Mario Monti). Penso que as propostas sobre «eurobonds» e sobre união fiscal se complementam e fazem ambas parte do debate mais alargado sobre a federalização da União Europeia. Mas enquanto todo o debate for visto como um braço de ferro entre diversos Estados Membros, em que alguns perdem para outros ganhar, a capacidade de compromisso entre as várias posições diminui.
E diminuindo a capacidade de compromisso por, na minha opinião, haver falta de visão estratégica para a União Europeia, ficamos presos a jogos posicionais que reflectem, à escala europeia, os jogos posicionais de política pura que temos (infelizmente) de aturar em Portugal. Claro que há quem tenha essa visão estratégica para a Europa (ver também, e principalmente, aqui). Também há quem tenha uma visão diferente, mais confederalista, e que a articule de forma intelectualmente honesta.
É esse debate que temos de ter, a uma escala europeia. O «Novo Rumo» de Mário Soares e Cia., certamente inspirado pela «bridge to nowhere» do Alaska, é apenas mais do mesmo e não apresenta quaisquer alternativas concretas, além de passar ao lado do essencial (pelo menos, do que me parece essencial). E aqueles que vão defendendo «soluções» insultando o lado contrário e assentando a sua posição na defesa intransigente de «interesses nacionais» em muito pouco ajudam a que o problema se resolva.
A verdadeira vencedora da continuação dos braços de ferro europeus é a crise, que se vai aprofundando. Enquanto não houver verdadeira consciência disso, não vamos sair da espiral de crise em que nos encontramos.
É preciso que os constantes braços de ferro sejam substituídos por espírito de compromisso e que estivesse a ter lugar um verdadeiro debate europeu sobre o futuro da União Europeia. Um debate que não assentasse em mitos e distorções de ambos os lados e em que os argumentos a favor e contra a soberania nacional fossem passados a pente fino. Mas tendo em conta que a maior parte da população não sabe sequer como funciona a União Europeia actualmente, isto torna-se quase impossível.
A actual crise na União Europeia torna-se muito mais difícil de resolver porque o debate europeu se tem mantido longe da população em geral, até mesmo mais que o debate político em geral. Nas eleições europeias fala-se de assuntos «nacionais» e quem concorre são os partidos «nacionais», apesar de já existirem partidos europeus. Os noticiários (em Portugal, mas imagino que em geral) tratam o que se passa no Parlamento Europeu de forma secundária e focam-se no Conselho.
A Comissão agora retomou a iniciativa, com propostas relativas a impostos sobre transacções financeiras e «eurobonds». Da Alemanha ouvem-se propostas sobre uma união fiscal (também com a França e com o novo Governo italiano de Mario Monti). Penso que as propostas sobre «eurobonds» e sobre união fiscal se complementam e fazem ambas parte do debate mais alargado sobre a federalização da União Europeia. Mas enquanto todo o debate for visto como um braço de ferro entre diversos Estados Membros, em que alguns perdem para outros ganhar, a capacidade de compromisso entre as várias posições diminui.
E diminuindo a capacidade de compromisso por, na minha opinião, haver falta de visão estratégica para a União Europeia, ficamos presos a jogos posicionais que reflectem, à escala europeia, os jogos posicionais de política pura que temos (infelizmente) de aturar em Portugal. Claro que há quem tenha essa visão estratégica para a Europa (ver também, e principalmente, aqui). Também há quem tenha uma visão diferente, mais confederalista, e que a articule de forma intelectualmente honesta.
É esse debate que temos de ter, a uma escala europeia. O «Novo Rumo» de Mário Soares e Cia., certamente inspirado pela «bridge to nowhere» do Alaska, é apenas mais do mesmo e não apresenta quaisquer alternativas concretas, além de passar ao lado do essencial (pelo menos, do que me parece essencial). E aqueles que vão defendendo «soluções» insultando o lado contrário e assentando a sua posição na defesa intransigente de «interesses nacionais» em muito pouco ajudam a que o problema se resolva.
A verdadeira vencedora da continuação dos braços de ferro europeus é a crise, que se vai aprofundando. Enquanto não houver verdadeira consciência disso, não vamos sair da espiral de crise em que nos encontramos.
Etiquetas:
Alemanha,
desenvolvimento económico,
Grécia,
integração europeia,
União Europeia
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Pensamentos soltos numa noite fria
1. Dizer que o Governo escolheu cortar fortemente os salários de funcionários públicos por os funcionários públicos não serem a sua base eleitoral é pensar que uma medida extremamente impopular como esta, num país em que toda a gente tem vários funcionários públicos na família ou entre os seus amigos e conhecidos, é tomada com base em cálculo eleitoral poucos meses após eleições e com as próximas eleições ainda a alguma distância. Mas é deste tipo de juízo de intenção que se vai fazendo muito do debate sobre o Orçamento do Estado de 2012.
2. Aliás, este tipo de argumentação com base em juízo de intenção, de ataque «ad hominem», é típica do debate político em Portugal, que se pauta por um nível muito baixo. Raramente se discutem propostas. Discute-se sempre quem as tomou, as segundas intenções que poderão estar por trás de cada decisão e, de vez em quando, carpem-se mágoas pelo terror que é a «ideologia», essa coisa horrível que cega quem toma decisões e os leva a ignorar «as pessoas» (ignorando-se, claro, que todos temos ideologia).
3. É muito fácil escrever meia dúzia de parágrafos a dizer que o Orçamento é terrível, que é iníquo, que declara guerra a funcionários públicos e pensionistas. É ainda mais fácil «surfar» essa onda com propostas do tipo as que o PS tem feito, com base numa suposta folga orçamental que a Troika não encontrou em lado nenhum, mas que o PS nos assegura que existe. Ou propor impostos sobre o luxo. Aliás, parece ser muito fácil propor aumentos de impostos, mas não cortes na despesa, quer da parte da Oposição, quer da parte do Governo.
4. E enquanto tudo isto acontece, há uma crise das dívidas soberanas na Europa que não tem gerado o debate que devia: um verdadeiro debate sobre uma federação europeia (ver aqui ou aqui). As meias decisões vão sendo tomadas, os alemães e os gregos vão sendo insultados, a legitimidade dos próprios Parlamentos vai sendo posta em causa por «indignados», mas um debate público sólido sobre o projecto europeu é algo que não existe.
5. Temos uma crise económica e financeira, a que se junta uma crise social e política, de resolução difícil e que está a levar ao limite todas as instituições que criámos para lidar com estas crises, quer cá na Europa, quer nos próprios Estados Unidos (onde as guerras entre o Presidente e o Congresso, e dentro do próprio Congresso, ajudaram bastante à primeira descida na notação da dívida soberana dos EUA de sempre). Uma crise em que todos saímos prejudicados e da qual sairíamos ainda mais prejudicados se se preferir a via da teoria da conspiração em vez de pensar na interligação que existe entre a Europa e os EUA.
6. No fim de contas, para ultrapassar a crise penso que teremos de aceitar que há problemas em várias escalas e que é preciso começarmos a resolver esses problemas na escala adequada. Enquanto continuarmos a pensar que é cada um por si, não vamos lá. Pior do que isso: enquanto continuarmos a pensar que a escala de hoje é a escala do séc. XIX e dos seus mitos nacionalistas, é precisamente a essa escala que vamos ficar presos, com enormes custos de oportunidade, a nível global, para todos nós.
2. Aliás, este tipo de argumentação com base em juízo de intenção, de ataque «ad hominem», é típica do debate político em Portugal, que se pauta por um nível muito baixo. Raramente se discutem propostas. Discute-se sempre quem as tomou, as segundas intenções que poderão estar por trás de cada decisão e, de vez em quando, carpem-se mágoas pelo terror que é a «ideologia», essa coisa horrível que cega quem toma decisões e os leva a ignorar «as pessoas» (ignorando-se, claro, que todos temos ideologia).
3. É muito fácil escrever meia dúzia de parágrafos a dizer que o Orçamento é terrível, que é iníquo, que declara guerra a funcionários públicos e pensionistas. É ainda mais fácil «surfar» essa onda com propostas do tipo as que o PS tem feito, com base numa suposta folga orçamental que a Troika não encontrou em lado nenhum, mas que o PS nos assegura que existe. Ou propor impostos sobre o luxo. Aliás, parece ser muito fácil propor aumentos de impostos, mas não cortes na despesa, quer da parte da Oposição, quer da parte do Governo.
4. E enquanto tudo isto acontece, há uma crise das dívidas soberanas na Europa que não tem gerado o debate que devia: um verdadeiro debate sobre uma federação europeia (ver aqui ou aqui). As meias decisões vão sendo tomadas, os alemães e os gregos vão sendo insultados, a legitimidade dos próprios Parlamentos vai sendo posta em causa por «indignados», mas um debate público sólido sobre o projecto europeu é algo que não existe.
5. Temos uma crise económica e financeira, a que se junta uma crise social e política, de resolução difícil e que está a levar ao limite todas as instituições que criámos para lidar com estas crises, quer cá na Europa, quer nos próprios Estados Unidos (onde as guerras entre o Presidente e o Congresso, e dentro do próprio Congresso, ajudaram bastante à primeira descida na notação da dívida soberana dos EUA de sempre). Uma crise em que todos saímos prejudicados e da qual sairíamos ainda mais prejudicados se se preferir a via da teoria da conspiração em vez de pensar na interligação que existe entre a Europa e os EUA.
6. No fim de contas, para ultrapassar a crise penso que teremos de aceitar que há problemas em várias escalas e que é preciso começarmos a resolver esses problemas na escala adequada. Enquanto continuarmos a pensar que é cada um por si, não vamos lá. Pior do que isso: enquanto continuarmos a pensar que a escala de hoje é a escala do séc. XIX e dos seus mitos nacionalistas, é precisamente a essa escala que vamos ficar presos, com enormes custos de oportunidade, a nível global, para todos nós.
Etiquetas:
Alemanha,
crise,
crise economica,
governo,
Grécia,
orçamento do estado para 2012
sábado, 5 de novembro de 2011
Contra o anti-germanismo e anti-helenismo
Na Grécia, a legitimidade democrática para acumular dívida e mentir sobre ela não tem limites. Anunciar referendos depois de duras negociações terem levado a um acordo, sem ter dito nada a ninguém, é de uma majestática democraticidade, uma manifestação portentosa de "soberania democrática". E a Grécia é uma vítima, não de erros próprios, mas de forças para além da sua capacidade de resistir.
Na Alemanha, a legitimidade democrática para não querer emprestar dinheiro à Grécia até pode existir, mas é um exercício claramente ilegítimo e nada solidário da maravilhosa "soberania democrática". A Alemanha querer que haja condições para emprestar o dinheiro também é inadmissível, tal como é inadmissível o Governo alemão ter posições diferentes daquelas defendidas pelos magníficos pensadores da Esquerda radical.
As gritarias anti-Alemanha são tão perigosas e mal pensadas como as gritarias anti-EUA e têm uma origem comum: os «poderosos» só têm responsabilidades, mas os «pobres» só têm direitos. Há nuances, e a posição não tende a ser tão extrema, mas no limite, é esta a lógica. A mesma lógica que leva à defesa de políticas que redundam na criação de «armadilhas de pobreza» em geral, mas aplicada à geopolítica.
Por outro lado, as gritarias contra a Grécia também são perigosas. Transformar os gregos em estereótipos negativos, ignorar os efeitos da crise e o facto de lhes terem, também a eles, mentido tem sido, e será sempre, uma receita para o ressentimento mútuo e para o desastre. Por outro lado, transformá-los em mártires também ignora todas as suas responsabilidades e em nada ajuda o problema a ser resolvido.
Não se pode tudo exigir da Alemanha, gritar com a Alemanha, insultar a Alemanha, culpar a Alemanha e tratar o eleitorado alemão como sendo irrelevante, ao mesmo tempo que se clama pela "soberania democrática grega". Mas também não se pode exigir tudo da Grécia, gritar com a Grécia, insultar a Grécia e culpar apenas a Grécia e tratar o eleitorado grego como sendo irrelevante, ao mesmo tempo que se impede a resolução do problema do euro através de uma muito maior federalização da UE.
«With great power comes great responsability.» Mas tendo a Alemanha «great power», não é a única com «responsibility». A Grécia também a tem: o que acontece na Grécia tem repercussões por toda a Europa e, no limite, por todo o mundo. Todos temos responsabilidades nesta crise, porque estamos num Mercado Único que é importante preservar. As gritarias e os atrasos que têm pautado a tomada de decisão na UE durante esta crise só se vão suceder consecutivamente, parece-me, até a UE simplificar e integrar o seu processo de tomada de decisão numa verdadeira federação.
Mas enquanto isso não acontecer, é importante que não nos deixemos levar por anti-germanismos e anti-helenismos. Não nos deixemos levar por jogadas com referendos na Grécia, desvalorizando e retirando legitimidade, de forma implícita, aos Parlamentos, e desprezando os outros parceiros de negociação da UE, também.
Principalmente, não nos deixemos enganar pelo canto de sereia da «soberania democrática», novo nome mais politicamente correcto da «soberania nacional». É que a crise das dívidas europeias é um problema europeu e global e, para o resolvermos, precisamos de uma resposta europeia e global. Não de gritarias, insultos ou atrasos.
Na Alemanha, a legitimidade democrática para não querer emprestar dinheiro à Grécia até pode existir, mas é um exercício claramente ilegítimo e nada solidário da maravilhosa "soberania democrática". A Alemanha querer que haja condições para emprestar o dinheiro também é inadmissível, tal como é inadmissível o Governo alemão ter posições diferentes daquelas defendidas pelos magníficos pensadores da Esquerda radical.
As gritarias anti-Alemanha são tão perigosas e mal pensadas como as gritarias anti-EUA e têm uma origem comum: os «poderosos» só têm responsabilidades, mas os «pobres» só têm direitos. Há nuances, e a posição não tende a ser tão extrema, mas no limite, é esta a lógica. A mesma lógica que leva à defesa de políticas que redundam na criação de «armadilhas de pobreza» em geral, mas aplicada à geopolítica.
Por outro lado, as gritarias contra a Grécia também são perigosas. Transformar os gregos em estereótipos negativos, ignorar os efeitos da crise e o facto de lhes terem, também a eles, mentido tem sido, e será sempre, uma receita para o ressentimento mútuo e para o desastre. Por outro lado, transformá-los em mártires também ignora todas as suas responsabilidades e em nada ajuda o problema a ser resolvido.
Não se pode tudo exigir da Alemanha, gritar com a Alemanha, insultar a Alemanha, culpar a Alemanha e tratar o eleitorado alemão como sendo irrelevante, ao mesmo tempo que se clama pela "soberania democrática grega". Mas também não se pode exigir tudo da Grécia, gritar com a Grécia, insultar a Grécia e culpar apenas a Grécia e tratar o eleitorado grego como sendo irrelevante, ao mesmo tempo que se impede a resolução do problema do euro através de uma muito maior federalização da UE.
«With great power comes great responsability.» Mas tendo a Alemanha «great power», não é a única com «responsibility». A Grécia também a tem: o que acontece na Grécia tem repercussões por toda a Europa e, no limite, por todo o mundo. Todos temos responsabilidades nesta crise, porque estamos num Mercado Único que é importante preservar. As gritarias e os atrasos que têm pautado a tomada de decisão na UE durante esta crise só se vão suceder consecutivamente, parece-me, até a UE simplificar e integrar o seu processo de tomada de decisão numa verdadeira federação.
Mas enquanto isso não acontecer, é importante que não nos deixemos levar por anti-germanismos e anti-helenismos. Não nos deixemos levar por jogadas com referendos na Grécia, desvalorizando e retirando legitimidade, de forma implícita, aos Parlamentos, e desprezando os outros parceiros de negociação da UE, também.
Principalmente, não nos deixemos enganar pelo canto de sereia da «soberania democrática», novo nome mais politicamente correcto da «soberania nacional». É que a crise das dívidas europeias é um problema europeu e global e, para o resolvermos, precisamos de uma resposta europeia e global. Não de gritarias, insultos ou atrasos.
Etiquetas:
Alemanha,
anti-germanismo,
anti-helenismo,
crise,
crise economica,
euro,
Grécia,
integração europeia,
União Europeia
Subscrever:
Mensagens (Atom)